
Mitja Zubin chegou ao Campeonato Europeu de Atletismo preparado para uma das maiores provas da sua jovem carreira. Acabou também no centro de uma discussão sobre homofobia no desporto.
O atleta esloveno, de 20 anos, estreou-se na competição depois de, em julho, ter alcançado um novo recorde pessoal nos 400 metros barreiras: 49,85 segundos.
Depois da prova, uma entrevista publicada nas redes sociais pela Federação Eslovena de Atletismo começou a acumular comentários homofóbicos e ataques à aparência do atleta. Zubin decidiu não os ignorar.
Partilhou alguns dos comentários nas suas próprias redes sociais, descrevendo-os como uma pequena amostra da «toxicidade online que acontece nos bastidores».
«Não percebia que havia tanto ódio em casa», escreveu. «É dececionante ver coisas assim.» A denúncia acabou por desencadear uma onda de solidariedade na Eslovénia e levou Zubin a falar publicamente, pela primeira vez, sobre ser gay.
«Talvez alguém que venha depois de mim não tenha vergonha»
A Federação Eslovena de Atletismo reagiu aos ataques, considerando «ofensivos e inaceitáveis» os comentários dirigidos às características pessoais e à orientação sexual das pessoas. Pouco depois, o caso chegou à Presidência da República.
Nataša Pirc Musar, Presidente da Eslovénia, dirigiu-se diretamente ao jovem atleta e condenou a homofobia e o discurso de ódio.
«Mitja Zubin, quero que saibas que o apoio da grande maioria das pessoas continua a acompanhar-te, mais alto do que aqueles que te insultam e humilham», escreveu.
A chefe de Estado acrescentou que «não há lugar para a homofobia, o discurso de ódio e a discriminação no desporto ou na nossa sociedade».
Zubin decidiu então falar abertamente sobre a sua orientação sexual.
«Assumi-me para que talvez alguém que venha depois de mim, alguém mais jovem, não tenha vergonha disso», explicou ao jornal desportivo esloveno Ekipa.
Em entrevista ao Outsports, contou que as pessoas mais próximas já sabiam que era gay. Tinha-se assumido perante a mãe, o irmão mais novo e amizades próximas aos 16 anos.
O que mudou foi a dimensão pública. «Nunca senti necessidade de o anunciar ao mundo», explicou. Mas, perante os ataques, decidiu que falar poderia ajudar outras pessoas.
A importância de ser visível no desporto
A dimensão dessa representação tornou-se ainda mais evidente durante o Europeu. Segundo o levantamento do Outsports, Mitja Zubin era o único homem assumidamente gay em competição no campeonato.
Para o atleta, essa ausência de referências também ajuda a explicar a importância de ter decidido falar. «A representação importa profundamente porque todas as pessoas devem sentir-se seguras, bem-vindas e valorizadas pelas suas capacidades desportivas», afirmou.
E é sobretudo nas gerações mais jovens que pensa. «Crescer com uma referência visível pode fazer toda a diferença», explicou. Zubin quer que atletas mais jovens, ou pessoas com dificuldades em aceitar quem são, percebam que «não estão sozinhas».
«Quero que vejam que podem ser quem realmente são e continuar a competir ao mais alto nível.»
Direitos avançam mais depressa do que algumas atitudes sociais
O episódio expõe também uma contradição que ultrapassa o atletismo. A Eslovénia tem registado avanços significativos nos direitos das pessoas LGBTI+. No Rainbow Map 2026 da ILGA-Europe, ocupa o 17.º lugar entre 49 países europeus, com uma pontuação de 54%.
O país reconhece o casamento entre pessoas do mesmo género e a adoção conjunta desde 2022, tornando-se então o primeiro país pós-comunista da Europa Central e de Leste a garantir ambos os direitos.
Mas uma legislação mais igualitária não elimina automaticamente preconceitos sociais. É precisamente essa distância entre direitos conquistados e experiências quotidianas que episódios como o vivido por Zubin tornam visível. A igualdade perante a lei pode avançar enquanto a homofobia continua presente nas bancadas, balneários, redes sociais ou caixas de comentários.
E a violência online não existe isolada da vida fora dos ecrãs. Para atletas, significa também competir enquanto lidam com ataques dirigidos não ao desempenho, mas à pessoa que são.
Mitja Zubin diz estar habituado a este ambiente desde a infância. «Sei que não devia ser considerado “normal”, mas é a realidade em que cresci.»
«Ser gay é apenas uma pequena parte de quem sou»
Agora, o atleta quer voltar a colocar o foco nas pistas. O objetivo é continuar a melhorar os resultados, chegar aos Campeonatos do Mundo e, eventualmente, aos Jogos Olímpicos. «Quero que os meus resultados falem por si», afirmou.
E rejeita que a orientação sexual passe a definir a sua carreira. «Ser gay é apenas uma pequena parte de quem sou. Não define toda a minha identidade nem os meus limites enquanto atleta.»
Mas isso não significa que considere irrelevante ter falado. Ao transformar ataques homofóbicos num momento de visibilidade, Zubin acabou por ocupar um espaço que ele próprio não sabia estar praticamente vazio.
E deixa uma mensagem particularmente simples a quem possa estar a começar agora uma carreira no desporto: «Quem és nunca deve impedir aquilo que podes alcançar na pista.»
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