Festival Política regressa a Lisboa com nova casa e os olhos postos na Constituição

Festival Política regressa a Lisboa com nova casa e os olhos postos na Constituição

Depois de ter estado em risco na capital, o Festival Política regressa a Lisboa entre 24 e 26 de setembro. A 10.ª edição do evento será dedicada aos 50 anos da Constituição da República Portuguesa, com três dias de música, teatro, cinema, oficinas e conversas de entrada gratuita.

O regresso acontece num contexto diferente dos anos anteriores. Em abril, a organização anunciou que o festival não se realizaria em Lisboa, depois de a EGEAC Lisboa Cultura ter decidido terminar a parceria que mantinha com a iniciativa desde a primeira edição.

Na altura, Bárbara Rosa, cofundadora do festival promovido pela Associação Isonomia, explicou à agência Lusa que a decisão tinha sido comunicada «já muito em cima da hora». A EGEAC justificou o fim da parceria por considerar que chegara o momento de apoiar novos projetos.

Quatro meses depois, o Festival Política confirma agora o regresso à cidade, através de uma coprodução entre a Associação Isonomia e a Junta de Freguesia de São Vicente. A programação ocupará vários espaços da freguesia, ainda por anunciar.

E fá-lo precisamente num ano em que escolhe colocar a democracia portuguesa no centro da programação.

50 anos depois, o que promete a Constituição e o que falta cumprir?

A Constituição da República Portuguesa foi aprovada em 1976, dois anos depois da Revolução de Abril, estabelecendo direitos, liberdades e garantias fundamentais da democracia portuguesa.

Meio século depois, é a distância entre os direitos inscritos no texto constitucional e a sua concretização no quotidiano que atravessa grande parte da programação. Um dos exemplos mais explícitos chega a 25 de setembro, com «Artigo por Artigo», concerto-conversa criado para o festival que junta Selma Uamusse e Ana Markl.

Selma Uamusse leva as suas canções ao palco, que servirão de ponto de partida para uma conversa entre ambas sobre memórias, dúvidas e certezas em torno dos direitos constitucionais. A proposta passa também por confrontar aquilo que a Constituição proclama com as desigualdades que persistem na sociedade portuguesa.

Na mesma noite, Nayr Faquirá apresenta «Artigo 13.º», uma performance musical original inspirada no princípio constitucional da igualdade.

A cantora, compositora e produtora luso-moçambicana cruza canções, palavra falada e momentos de partilha para pensar igualdade, liberdade e dignidade a partir da experiência quotidiana. Identidade, herança migrante, representação, saúde mental e condição feminina atravessam o espetáculo.

Imaginar outros futuros

A música volta a ocupar o palco na noite de encerramento, a 26 de setembro, com emmy Curl e «Solarpunk — Um Pastoral do Futuro Regenerativo».

O espetáculo parte do solarpunk, movimento que procura imaginar futuros sustentáveis e socialmente mais justos, em contraste com as distopias frequentemente associadas ao cyberpunk.

emmy Curl, que participou no Festival da Canção em 2025, cruza sonoridades modernas e futuristas com tradições e memórias do interior português. No centro está uma pergunta política: como imaginar progresso sem separar o bem-estar humano da preservação ambiental?

A proposta aproxima tecnologia, saberes ancestrais e gestão sustentável dos recursos, num concerto que evoca florestas, aldeias e comunidades que continuam a cuidar da terra.

Migração, periferias e violência estrutural também sobem ao palco

O teatro chega logo no primeiro dia do festival. A 24 de setembro, Roni Sousa apresenta «Príncipe do Gueto», pela primeira vez em Portugal, depois da estreia em Brasília.

A tragédia contemporânea acompanha um jovem marcado pela herança de um pai migrante e pela vida na periferia da capital brasileira. Ao longo de três atos, aborda violência estrutural, pertença, desigualdade e a promessa nem sempre cumprida de mobilidade social.

No centro está Príncipe, um jovem que tenta definir-se num mundo que continuamente procura defini-lo.

Já no sábado, alunos do Curso Básico de Teatro da Casa Pia apresentam «Luzes da Liberdade». O espetáculo recua à Constituição de 1911 para percorrer diferentes momentos históricos e refletir sobre igualdade, liberdade, educação, trabalho digno e participação cívica.

A partir daí, aproxima esses princípios dos desafios contemporâneos, das migrações às transformações do trabalho e à influência das redes sociais.

13 filmes entre cidades, corpos e continentes

O cinema constitui outro dos grandes eixos da programação, com 13 curtas-metragens distribuídas por quatro sessões: «Direito à Cidade», «Sonho e Resistência», «Corpos em Trânsito» e «Entre Continentes».

Habitação, migração, identidade, memória, precariedade e pertença atravessam as diferentes propostas.

Entre os filmes exibidos está «Irregular», de Julio Moreira, que acompanha Camila Mendonça da Silva, artista brasileira a viver em Portugal e confrontada com precariedade laboral e insegurança documental.

Em «Catálogo de uma Cidade Sem Tecto», Diogo Cunha olha para a crise da habitação no Porto e para uma cidade progressivamente transformada pelo alojamento local e pela construção hoteleira.

«Entre Cães e Lobos», de Khalissa Akadi e Mathilde Sauvère, acompanha Leo, jovem de um bairro da área de Lisboa, depois da morte de Odair Moniz. Revolta, resistência e desejo de transformação atravessam a narrativa.

A programação inclui ainda «O Meu Amor do Rancho», de Miguel De, uma história de amor atravessada pelas regras de género das danças tradicionais, integrada na sessão «Corpos em Trânsito».

No encerramento, «Fogo Abismo», de Roni Sousa, reconstrói através de fotografias familiares, arquivo e imagens ficcionadas as memórias de uma infância numa favela de Brasília.

A cidade também se faz com quem nela vive

Festival Política regressa a Lisboa com nova casa e os olhos postos na Constituição

A participação cidadã não surge apenas como tema. O festival propõe também atividades em que pessoas moradoras e participantes são convidadas a pensar o território onde o próprio evento acontece.

A oficina-debate «Mapeamento Coletivo do Bairro Azul», dinamizada por António Brito Guterres, pretende construir uma cartografia colaborativa a partir das memórias, experiências e emoções de quem vive no bairro.

No dia seguinte, «Mapa da Cidade», com António Brito Guterres e Emma Andretti, alarga o exercício à freguesia de São Vicente.

Os resultados serão apresentados e discutidos publicamente no último dia do festival, procurando tornar visíveis territórios e experiências que tendem a desaparecer dos mapas oficiais.

A programação inclui ainda propostas dirigidas a diferentes idades. Em «A Constituição em Cartas», crianças a partir dos seis anos e famílias são convidadas a transformar princípios como liberdade, igualdade, educação, habitação e participação em cartas ilustradas.

Vanessa Di Farias dinamiza «Autocuidado, Identidade e Ancestralidade», dedicada à identidade, pertença e diversidade. Humberto Pedrancini e Roni Sousa orientam ainda «Corpo, Voz e Comunicação», uma oficina de expressão através de jogos teatrais e improvisação.

Dez anos a levar política para fora da política institucional

Criado pela Associação Isonomia, o Festival Política celebra em 2026 uma década de atividade. A iniciativa apresenta-se como um espaço dedicado aos direitos humanos e à cidadania, cruzando debate político com diferentes formas de criação artística.

A edição deste ano ganha uma dimensão particular. Não apenas porque coincide com os 50 anos da Constituição, mas porque o próprio regresso a Lisboa esteve, durante alguns meses, em dúvida.

Entre direitos escritos há meio século, desigualdades ainda presentes e futuros que permanecem por construir, o festival regressa assim a uma das questões que tem atravessado a sua história: como transformar cidadania e democracia em experiências que não terminem nas instituições?

O Festival Política decorre em Lisboa entre 24 e 26 de setembro, em vários espaços da freguesia de São Vicente. Toda a programação tem entrada gratuita.

Depois de Lisboa, o festival segue para Loulé, de 22 a 24 de outubro; Coimbra, de 12 a 14 de novembro; e Torres Vedras, a 28 e 29 de novembro.


Subscreve à nossa Newsletter Semanal Maravilha Aqui! 🙂
Todos os sábados de manhã receberás um resumo de todos os artigos publicados durante a semana. Sem stress, sem spam, a nossa orgulhosa Newsletter Semanal pode ser cancelada a qualquer momento! 🏳️‍🌈


A esQrever no teu email

Subscreve e recebe os artigos mais recentes na tua caixa de email

Deixa uma resposta

Apoia a esQrever

Este é um projeto comunitário, voluntário e sem fins lucrativos, criado em 2014, e nunca vamos cobrar pelo conteúdo produzido, nem aceitar patrocínios que nos possam condicionar de alguma forma. Mas este é também um projeto que tem um custo financeiro pelas várias ferramentas que precisa usar – como o site, o domínio ou equipamento para a gravação do Podcast. Por isso, e caso possas, ajuda-nos a colmatar parte desses custos. Oferece-nos um café, um chá, ou outro valor que te faça sentido. Estes apoios são sempre bem-vindos 🌈

Buy Me a Coffee at ko-fi.com