
Dos papéis queer no cinema à defesa pública da igualdade, Patrick Stewart deixa um legado que ultrapassa a ficção. A amizade com Ian McKellen tornou-se um dos símbolos mais reconhecidos desse compromisso.
O ator britânico Patrick Stewart morreu a 28 de outubro, aos 86 anos, na sua residência em Los Angeles, após um período de doença associado a Alzheimer e demência com corpos de Lewy. A notícia foi anunciada pela família no dia seguinte, desencadeando homenagens de colegas, amizades e admiradores de todo o mundo.
Conhecido sobretudo pelos papéis do capitão Jean-Luc Picard, em Star Trek, e do Professor Charles Xavier, na saga X-Men, Stewart construiu uma carreira de mais de seis décadas no teatro, cinema e televisão. Mas, para a comunidade LGBTI+, o seu legado vai além das personagens que o tornaram mundialmente conhecido.
Aliado da igualdade e defensor dos direitos LGBTQIA+, Stewart participou em campanhas públicas, interpretou personagens queer em diferentes momentos da carreira e nunca escondeu a proximidade com a comunidade.
«Apoiar os direitos LGBTQIA+ foi sempre uma escolha natural»
Numa entrevista à revista The Advocate, em 2015, Patrick Stewart recordou que o contacto com colegas e amizades gays e lésbicas, desde os primeiros anos no teatro, tornou o seu apoio à igualdade uma escolha espontânea.
O ator explicou que nunca tinha sentido necessidade de tomar uma decisão consciente para apoiar os direitos civis das pessoas LGBTQIA+: «Foi sempre uma escolha natural e descomplicada», afirmou, acrescentando que, mais tarde, a proximidade com ativistas como Ian McKellen o levou a participar em campanhas e manifestações pela igualdade.
Essa atitude valeu-lhe, em 2013, o prémio Straight for Equality in Entertainment, atribuído pela organização estadunidense PFLAG, que reconheceu o seu contributo para a igualdade e para a representação LGBTQIA+ na indústria do entretenimento.
Em 2015, Stewart voltou a reafirmar publicamente o seu compromisso com os direitos LGBTQIA+, após uma polémica relacionada com uma pastelaria da Irlanda do Norte que recusara produzir um bolo com uma mensagem de apoio ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Embora defendesse a liberdade de expressão da pastelaria naquele caso, rejeitou que a sua posição fosse interpretada como contrária à igualdade. Numa declaração publicada no Facebook, sublinhou que há muito defendia os direitos da comunidade LGBTQIA+, porque «a igualdade não deve apenas ser universalmente aceite, mas também valorizada».
Personagens queer numa época de preconceito



O compromisso de Stewart também se refletiu nas personagens que aceitou interpretar.
Em 1995, participou em Jeffrey, uma comédia romântica centrada na vida de um homem gay em Nova Iorque durante a epidemia de VIH/SIDA.
Stewart interpretou Sterling, um decorador de interiores gay cujo companheiro, Darius, vive com VIH. A personagem combinava humor, afeto e vulnerabilidade, num filme que abordava o medo da doença, o amor e as relações entre homens.
Na altura da estreia, o ator revelou ter procurado a orientação do realizador Christopher Ashley e do argumentista Paul Rudnick, ambos gays, para evitar interpretações assentes em estereótipos.
Posteriormente, interpretou Alistair Burke, um encenador de ópera gay que se interessa por Frasier Crane, na série Frasier. Já no filme Match, deu vida a Tobi, um professor de dança bissexual, abordando também a sexualidade e a intimidade na velhice.
A sua participação nestas produções contribuiu para dar visibilidade a diferentes experiências queer, incluindo numa época em que a representação LGBTQIA+ continuava a enfrentar resistência na indústria audiovisual.
Ian McKellen: uma amizade que atravessou décadas

Uma das relações mais marcantes da vida de Patrick Stewart foi a amizade com Ian McKellen, ator assumidamente gay e histórico defensor dos direitos LGBTI+.
Os dois conheceram-se na Royal Shakespeare Company, na década de 1970, mas aproximaram-se particularmente durante as filmagens de X-Men, onde interpretaram Professor Xavier e Magneto.
Ao longo dos anos, a amizade tornou-se pública através de entrevistas conjuntas, fotografias, manifestações de carinho e aparições em eventos. Em 2013, McKellen chegou a celebrar o casamento de Stewart com a cantora Sunny Ozell.
A proximidade entre ambos também ajudou a desafiar convenções sobre a expressão de afeto entre homens. Os dois foram fotografados a beijar-se, a passear de mãos dadas e a demonstrar abertamente o carinho que sentiam um pelo outro.
Em 2014, quando o jornal The Guardian identificou, erradamente, Stewart como gay, o ator respondeu com humor, sem manifestar qualquer desconforto com a associação.
Numa entrevista posterior afirmou ter-se sentido lisonjeado com o equívoco. Recordou ainda que McKellen lhe enviara uma mensagem de felicitações pela notícia.
A amizade manteve-se até ao fim da sua vida. Após a morte de Stewart, Ian McKellen partilhou uma homenagem, recordando a honestidade, a generosidade e a sensibilidade do amigo:
«Usava o coração ao peito, o que fazia dele um homem em quem se podia confiar, que se podia admirar e, no meu caso, amar.»
Na publicação, McKellen recordou também as suas primeiras experiências profissionais com Stewart e o momento em que o aconselhou sobre a possibilidade de aceitar um papel em Star Trek. O ator acabaria por se tornar numa das figuras mais reconhecidas da ficção científica, sem abandonar o teatro clássico que ambos tanto valorizavam.
Um legado de igualdade, dentro e fora do ecrã
A defesa da igualdade esteve também presente na forma como Stewart olhava para as histórias que protagonizava. Nos filmes X-Men, a marginalização das pessoas mutantes foi frequentemente associada à discriminação enfrentada por diferentes minorias, incluindo as pessoas LGBTQIA+.
Stewart e McKellen reconheceram publicamente essas semelhanças, discutindo como as personagens dos filmes refletiam diferentes respostas à exclusão social.
Fora do cinema, Stewart celebrou avanços como o reconhecimento legal do casamento entre pessoas do mesmo sexo e utilizou a sua notoriedade para apoiar campanhas pela igualdade.
A sua trajetória não foi definida apenas por grandes declarações ou gestos públicos. Foi também marcada pela forma como encarava as relações pessoais, a diversidade e o direito de cada pessoa viver livremente.
Patrick Stewart deixa, assim, um legado que ultrapassa os universos de Star Trek e X-Men: o de alguém que fez da solidariedade com a comunidade LGBTQIA+ uma parte consistente da sua vida pública e pessoal.
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