Pinkwashing e o Pride: Qual o Preço do Orgulho?

Presenciar um evento como o World Pride que aconteceu em Madrid no final de Junho muda uma série de coisas e perspetivações. Ver e sentir a alegria e espírito de aceitação de 3 milhões de pessoas durante aqueles cinco dias não é algo que possa ser realmente quantificado ou expresso. E tudo começa na chegada à cidade espanhola: logo no aeroporto vemos nas estações de metro inúmeros cartazes de publicidade por parte de várias empresas e campanhas institucionais a reforçar as boas práticas e sentimento de inclusão e aceitação que se deve viver durante o mês do Pride. Saindo na Puerta del Sol, viramos costas e vemos um prédio inteiro coberto por um cartaz de boas-vindas da Netflix: Rainbow is the New Black. E o arco-íris é mesmo rei, não há entidade pública, privada, comercial que não hasteie a bandeira de alguma forma. E na sua ausência há mesmo estranheza e até alguma desconfiança.

Ver esta apropriação da bandeira arco-íris é uma faca de dois gumes. Se por um lado é revigorante e amenizante esta onda de aceitação, por outro é um sinal claro de alguma da desvinculação política do Pride. Quando voaram as primeiras bandeiras arco-íris depois dos tumultos de Stonewall em 1969, segurar aquela bandeira era um ato de desafio e reivindicação. E rebelde. E criminoso. A comunidade LGBTI está hoje dividida e este é claramente um dos pontos fulcrais nessa cisão. Muitos sentem que o Pride se transformou numa fugaz plataforma publicitária para grandes marcas e empresas, cujo capital e poder foi no passado usado para discriminar a população LGBTI, agora imersas numa campanha de pinkwashing para fugir a essa sombra via proliferação de arco-íris. Surgem movimentos ativistas anti-Pride um pouco por todo o Mundo ocidental, onde o Pride já tem alguma história e cresceu de forma mais ou menos (des)controlada, de modo a tentar recuperar a linhagem política do mesmo. Em Madrid, o movimento Orgullo Critico impunha o grito de revolta dias antes do World Pride: “Madrid não se vende e o Orgulho também não”.

Esta ruptura intra-comunitária tem vindo mesmo a tornar-se incendiária. Este ano foram inúmeras as tentativas de limitação da presença de certos grupos no Pride por parte das fações mais politizadas do ativismo LGBTI. Em Washington tentou-se travar a presença de grupos de polícias a apoiar o Pride por se tratar de uma força que ainda discrimina maioritariamente grande parte da população americana, nomeadamente a negra. Em Chicago pessoas judias que impunham a bandeira arco-íris com a estrela de David na marcha foram obrigadas a sair por promover uma atitude pro-Israel e, automaticamente, anti-Palestina. As marcas e entidades privadas também foram colocadas em cheque e acusadas de pinkwashing, tanto nos Estados Unidos como até em Portugal.

A população LGBTI é tão diversa como a sociedade em que está inserida. É natural (e saudável) que existam diferenças ideológicas, profundas ou não, dentro da mesma. E essas crenças políticas merecem palco central em qualquer Pride. Ganharam esse direito com o suor e sangue daqueles e daquelas que trilharam este caminho bem antes de nós. Mas têm também de ser representativas do que é a comunidade em si e não espelhar apenas as agendas de alguns grupos ou sub-grupos (ou sub-sub-sub-grupos) mais extremados nas suas convicções políticas. Se há quem acredite que o único caminho para a inclusão na sociedade é rejeitá-la nos moldes em que a temos e reconstruí-la a partir do zero, também há quem se reja por diretrizes opostas, de trabalhar com o sistema na tentativa de o mudar internamente. Obviamente que é errado que qualquer marca ou empresa possa marcar presença sem qualquer critério ou investigação das boas práticas para com a população LGBTI e outros grupos minoritários. No entanto, tornar todos os tópicos que nos afetam num “nós contra todos” já não resulta na sociedade não-utópica em que estamos inseridos, queiramos ou não aceitar esse facto incontornável. Se uma marcha num Pride inicialmente era de pura e inadulterada intervenção política, cabe-nos a nós acompanhar o avanço dos tempos e aceitar que essa imposição já não faz sentido nos espaços sociais em que (felizmente) começamos a estar inseridos. Não funcionará se quisermos sair da nossa bolha e alcançar aqueles que tendencialmente não nos querem ouvir gritar. Ou ver marchar. Por isso afastar qualquer grupo com base em divergências políticas sem ter em conta o propósito por detrás do apoio ao Pride, enquanto os acusamos imediatamente de pinkwashing, é ainda mais errado. E potencia novamente isolamento.

Muito antes dos corpos legislativos e judiciais exigirem políticas de não-discriminação para as pessoas LGBT, muitas empresas, nomeadamente nos Estados Unidos como a Apple ou a Google, tomaram a dianteira na instauração de políticas internas de proteção dos seus empregados LGBTI, potenciais e efetivos. Outras marcas como a IKEA ou a Tiffany’s foram também pioneiras nas campanhas publicitárias que visavam a inclusão e promoção da diversidade. Foram todas elas impulsionadoras de mudança social. Por que raio havemos agora de as excluir das celebrações do Pride? A realidade é que se hoje em dia é muito mais fácil qualquer marca aliar-se à causa LGBTI, e as intenções por detrás de tal não nos cabe a nós julgar, também é verdade que ainda têm muito a perder se o fizerem. É óbvio que as políticas de inclusão colhem frutos junto da população LGBTI e das pessoas suas aliadas. Mas a maioria das pessoas alheias (ou opositoras) à causa, vê esta inclusão com indiferença ou até como ofensiva. Bastou a McDonald’s promover batatas fritas arco-íris durante o Pride para sentirem as repercussões dos grupos conservadores, religiosos e outros palhaços destituídos de circo. Não é ainda uma atitude sem riscos. E em lugar de as colocarmos imediatamente em cheque pelo simples facto de serem corporações multi-milionárias, logo demoníacas e o inimigo, tentemos pro-activamente vislumbrar as coisas de outra perspectiva. A comercialização do Pride pode ter efeitos perniciosos de apropriação em prol de lucro e mediatismo, mas tem um efeito junto do grande público que, a meu ver, se sobrepõem a qualquer possibilidade de desonestidade e talvez, a longo prazo, valha o preço pago: o da inclusão.

Nos restaurantes da Burger King em Madrid distribuíam-se coroas arco-íris e, num deles, assisti a uma cena rotineira de uma família heterossexual, na qual o pai impunha a sua coroa enquanto montava outra para colocar na cabeça do filho. Podem-me dizer que aquele ato é completamente desprovido de caráter interventivo e até de ser inadvertido. Mas porra, se aquele ato, consciente ou não, não é exatamente um reflexo da razão pela qual lutamos então já não sei mesmo qual ela é. Eu passei pela minha infância, adolescência e até parte da vida adulta a pensar que sinais como estes não iriam acontecer numa altura em que eu fosse capaz de os presenciar, por isso não preciso de permissão para me emocionar com uma coisa tão (deliciosamente) quotidiana como esta. E sim, no meio de descarados chamarizes consumistas e maioritariamente direccionados para homens homossexuais – masculinos, discretos, musculados, brancos – surge algo que acaba por ultrapassar estas limitações inerentes a qualquer evento numa escala como o World Pride: um sentimento de euforia viral que se dissemina pela celebração da aceitação identitária de cada um.

Temos de continuar a lutar pelos que não o podem fazer. Fervorosamente. Se a nós, ocidentais numa sociedade desenfreadamente consumista e *gulp* capitalista, já nos é permitido termos estas regalias e possibilidade de nos insurgirmos contra as posições mais ou menos duvidosas que os nossos Prides parecem querer assumir, não nos esqueçamos que na maior parte do Mundo qualquer demonstração de orgulho LGBTI é ainda criminoso. Há pessoas que morrem diariamente por decidirem ser quem são. Não as podemos omitir do pensamento quando descarregamos uma aplicação do Pride ou comemos um hambúrguer com cores do arco-íris. Mas a chave está, novamente, na inclusão. Não nos cabe a nós decidir quem é merecedor de caminhar ao nosso lado numa marcha de orgulho. Chamar mais e mais pessoas para o Pride, não só LGBTI mas também as aliadas e as potenciais aliadas, é um instrumento de mudança com um poder tremendo e com um alcance imensurável. Mais ruidoso que qualquer megafone e mais chocante que qualquer arremessar de pedras da calçada. Celebrar TODAS as diferenças num espaço seguro como o Pride em lugar de combate-las belicosamente é ajudar à representação de toda a sociedade nele. Não é essa a inclusão que queremos? Porque se segregamos todas as pessoas que nos querem apoiar por terem algumas posições diferentes das nossas… caminharemos sozinhos. Novamente. Isolados do resto da sociedade, porque não queremos pertencer a algo tão inerentemente corrompido, a gritar tão alto pelos nossos direitos e pela maneira como são violados que se tornam totalmente imperceptíveis para quem tenha vontade de os ouvir. Pessoalmente, não quero isso. O Pride – e o Mundo – mudaram muito desde Stonewall e as forma de luta e reivindicação pelos nossos direitos têm de acompanhar essa mudança. Ou seremos nada mais que o mesmo monstro que queremos tão fervorosamente combater.

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