Marielle Franco: Política, Feminista, Negra, Favelada E, Ainda Que Largamente Omitido, Bissexual

Marielle Franco foi assassinada com quatro balas na cabeça depois de participar num evento sobre ‘Jovens Negras Movendo Estruturas‘. Nesta execução – é a própria polícia que o diz – morreu igualmente o motorista que a levava, Anderson Gomes. Nas várias notícias fala-se de uma política próxima das favelas – onde cresceu -, numa ativista pelos direitos humanos, uma feminista, uma mulher, negra. Houve, no entanto, uma ausência que saltou à vista, apesar de ter facilmente encontrado informação sobre a sua bissexualidade: eram raras, muito raras as menções a este aspecto da sua identidade. Falou-se de ser mulher, negra, feminista, ativista, da flavela, mas ela assumir-se bissexual e casada com uma mulher foi um aspecto largamente omitido nos meios de comunicação nacionais. Poderá tratar-se de um mero acaso, um descuido por parte da comunicação social?

Talvez seja, mas a verdade é que, tirando algumas exceções – como os artigos de opinião da Fernanda Câncio no DN ou da Joacine Katar Moreira no Público – a sua identidade foi apagada no seu todo. Percorrer dezenas de notícias nos vários jornais portugueses e encontrar apenas uma única menção é, no mínimo, estranho. Mas recordemos que este não é o primeiro caso em que se tenta rasurar a temática LGBTI no que toca a eventos traumatizantes e de posterior união unânime como o assassinato de Marielle Franco. Basta recuar dois anos para ver como os média portugueses trataram o atentado de Orlando, muitas vezes recusando tratá-lo como o acto homofóbico.

Porque – e talvez seja este mais um exemplo – a orientação sexual de uma pessoa é um não-assunto, é do foro privado, não é relevante, são pessoas! Só que não é bem isso que na realidade se passa, não é verdade? Toda esta lógica invisibiliza as pessoas e as suas identidades. Omitir ou descurar sobre quem foi Marielle Franco é não perceber na plenitude tudo aquilo que ela representa e que tentaram silenciar. E isso não podemos permitir que o façam pois merecemos uma Marielle Franco diversa e unificadora, mas, acima de tudo, inteira.

Fonte: Imagem.

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