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Legitimar uma relação lésbica, sim, e muito mais

71st Cannes Film Festival

“Rafiki” fez história ao ter sido o primeiro filme queniano em competição no Festival de Cannes e esta semana está a fazer novamente história, agora no seu país de origem e para tod@s @s quenian@s que tiveram na passada semana a oportunidade de vê-lo.

Entre 23 e 29 de setembro, este filme inspirado no conto premiado “Jambula Tree” da ugandense Monica Arac de Nyeko, pode ser visionado num cinema de Nairobi no Quénia, depois da sua exibição ter sido proibida por “legitimar” e promover uma relação lésbica. Este levantamento temporário da proibição por sete dias, possível graças à decisão de uma juíza do Supremo Tribunal de Nairobi, permite ao filme candidatar-se ao prémio de Melhor Filme Estrangeiro dos Óscares da Academia. Não é façanha pequena. As reações são muitas e esta é, claro, uma das grandes notícias para a luta e visibilidade LGBTI em países africanos, extremamente conservadores e que criminalizam ainda a homossexualidade.

Esta é a história, a notícia, o relato objetivo, que nos deixa a tod@s felizes.

Mas aquilo que ainda me deixa mais feliz e que me fascina mais é pensar na história das centenas de pessoas que estão a poder assistir ao filme numa sala de cinema no Quénia. Elas fazem parte da História e as suas vidas estarão marcadas também por esse momento.

Recorda-me as histórias que ouvi dos meus pais e ti@s sobre as corridas aos cinemas no pós-25 de abril de 1974, em que filmes proibidos pela censura puderam finalmente ser exibidos em Portugal. Também nós estávamos ávid@s de saber o que era isso tão simples de ver o que se quisesse livremente, por muito que depois nos pudesse desagradar.

Em 2018, num país em que um ato homossexual ainda pode levar a 14 anos de prisão, há centenas de pessoas que estão a ver um filme com cenas claramente “criminosas”. E a julgar pelo trailer, cenas em que o “crime” compensa. E em que tod@s @s espectadores/as podem sair inocentes e certamente mais ric@s.

MV5BZmU2MjllMWYtZDA3MS00YjJjLWE3MDQtM2RlMzViZGUyMzhkXkEyXkFqcGdeQXVyMjQ3NzUxOTM@._V1_A importância destes sete dias, deste levantamento, deste gesto do Supremo Tribunal, é inquestionável. De uma forma livre, as pessoas terão acesso a conteúdos de teor lésbico sem serem perseguidas ou julgadas por isso. Haverá mais gente curiosa, mais gente a falar, mais gente a debater este tema.

O facto de ser proibido desperta ainda mais a curiosidade e, nesse confronto, derruba o preconceito, pois a audiência vê muito mais que a censura ou o paradigma do opressor. Pode ver o outro lado, o amor, a luta, a humanidade e, quem sabe, a ver se veja também a mudança.

Quantos mais conteúdos LGBTI houver, mais representatividade teremos, mais voz e mais expressão. Conteúdos LGBTI de geografias não ocidentais levam-nos ainda mais longe, pois garantem que a história das mulheres, das lésbicas, dos homossexuais, das pessoas trans, de todas as pessoas fora da normatividade, não será esmagada por uma história dominante.

Com este filme, primeiro por ter sido banido e agora por ser exibido em apenas sete dias, a história das mulheres lésbicas africanas pode mudar um pouco, os ativismos podem crescer, aumenta o orgulho e o reconhecimento, mudam-se quem sabe políticas e sentenças de tribunal.

A realizadora Wanuri Kahiu sai vencedora com este filme e assim continua a espalhar a sua visão criando trabalhos que ultrapassam as ideias feitas sobre africanidade.

A mim, lésbica mas europeia e branca, esta realidade comove-me porque me anuncia felicidade em tanta gente, porque é uma vitória sobre o ódio e o preconceito. Para além disso, deixa-me contente por haver mais conteúdos em que me posso reconhecer ou compreender semelhantes da nossa comunidade global. Irei ver “Rafiki” livremente, irei ler “Jambula Tree” livremente – desse privilégio, devo aproveitar para espalhar a palavra para que, cada vez mais, mais e mais gente possa fazê-lo também.

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