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Estoril Praia e a importância da noite histórica do futebol português

Quem me conhece saberá certamente da minha paixão pelo desporto. Desde criança que pratico vários desportos, entre o meu foco no atletismo, natação e ténis, também dediquei muitas horas de gozo da minha vida pelo futebol, andebol ou voleibol. Ainda assim, sempre foi um prazer solitário e, acrescento ainda, um gosto que vivi acima de tudo internamente. Pela falta de exemplos e ícones que um rapaz procura enquanto cresce e desenvolve as suas qualidades desportivas. Olhava na altura com admiração para inúmeros e inúmeras atletas, mas a verdade é que nunca fui capaz de me rever por completo. Não havia nenhum gay, nenhuma lésbica, ninguém bissexual a quem eu poderia aspirar.

Perguntar-me-ão que interessa a orientação sexual de um ou de uma atleta? Não valerá unicamente o seu esforço, o seu dom, as suas conquistas desportivas e tudo o resto será secundário e irrelevante? Tomara que assim fosse, responder-vos-ia. Mas a realidade que vivi e que ainda vejo é inequívoca: o desporto é ainda um mundo altamente machista, homofóbico e transfóbico. Pior, é um mundo em que na sua componente mais agressiva – nas claques, por exemplo – estes comportamentos ainda são vistos como a normalidade. É normal chamar árbitros de filhos da puta. É normal chamar adversários de paneleiros ou panilas. Foi no meio de toda esta normalidade que cresci e vivi o meu gozo pelo desporto ao longo dos anos. Tudo aquilo que me impulsionava para a frente, a correr mais rápido, a chutar mais forte era também aquilo que me enchia de vergonha e medo que um dia pudesse ser descoberto. Era apenas um adolescente que gostava imensamente de desporto. Vivi vários anos aterrorizado que colegas e treinadores meus pudessem descobrir-me. Morria um pouco só de pensar na hipótese de um dia poder eu tornar-me no paneleiro, no panilas. E estas condicionantes diárias moldam uma pessoa que internaliza assim a sua vergonha.

Felizmente estes receios e medos nunca me derrubaram a força para continuar a lutar pelos meus objetivos desportivos. Continuei a treinar e a correr mais rápido ao mesmo tempo que ignorava, dentro do possível, qualquer comentário homofóbico que ouvia por parte daqueles e daquelas que a meu lado estavam. Afinal de contas, “aqui não há panilas“, não é verdade?

Da mesma forma, felizmente nunca dirigi essa energia que, descobri mais tarde me consumia, para me tornar num bully. Mas, pergunto-me, que diferença ter-me-ia feito se algum ou alguma atleta tivesse saído do armário quando era jovem. Que diferença faria se tivesse tido um Célio Dias para me inspirar e mostrar que não havia qualquer razão para sentir vergonha ou sentir-me menos que os meus adversários por ser gay, por ser quem sou? Que diferença faria se os clubes por onde passei tivessem a preocupação de lutar ativamente contra o preconceito ou a discriminação homofóbica?

É aqui que surge o Clube Estoril Praia. Porque tornou-se no primeiro clube de futebol profissional a lançar uma campanha precisamente contra qualquer tipo de discriminação e preconceito. Para além do cachecol arco-íris, o clube tem em marcha um processo de formação de treinadores, coordenadores e dirigentes, que tem por objectivo capacitá-los para identificar, gerir e valorizar a diferença. “Não vamos permitir qualquer tipo de acto discriminatório na esfera do clube“, garantiu o Presidente Alexandre Faria.

Que diferença fará isto a pessoas e, em especial, a jovens que sejam atletas ou fãs do clube estorilista? Esta é uma visão que já em 2018, aquando da I Conferência ex aequo sobre a inclusão no desporto, Filipe Mendonça, do departamento de comunicação do Estoril Praia, lamentou não haver mais clubes desportivos presentes na conferência, reflectindo um percurso contra-corrente da generalidade dos restantes clubes. “Cada atleta tem a sua identidade e a sua individualidade tem que ser respeitada.“

Menos de um ano passado, o clube foi além da posição que defendia e concretizou neste domingo, 24 de fevereiro, o lançamento da campanha #UmClubeParaTodos em que a mensagem que quer transmitir é inequívoca: para além de se posicionar explicitamente contra a homofobia, é um clube profundamente Orgulhoso! E com razões para tal!

Nessa noite foram convidadas várias associações e colectivos pelos Direitos Humanos para assistir ao jogo frente à Académica de Coimbra e marcar assim o pontapé de saída da campanha. Fomos muitíssimo bem recebidos e recebidas, ficou desde logo claro que este não era um evento vazio. A emoção nas vozes e nos olhares de quem nos recebeu foram espelho da genuinidade e do Orgulho daquilo que estava prestes a acontecer, daquilo que estavam prestes a fazer acontecer. Antes de entrarmos houve promessas de surpresas dedicadas à população LGBTI.

E foi mesmo verdade! As bancadas embelezadas com largas bandas arco-íris em vários pontos do estádio receberam as dezenas de ativistas que aceitaram o convite do Estoril Praia, entre elas representantes da ILGA Portugal, AMPLOS ou Boys Just Wanna Have Fun. Muitas pessoas ligadas ao desporto, tal como outras que fizeram questão de ali estar por entenderem a importância do simbolismo daquele momento histórico no desporto em Portugal. As mascotes do clube vestiam orgulhosamente os cachecóis multicolores, símbolos da campanha, enquanto divertiam a plateia.

Não deixou de ser um momento especialmente marcante quando foi anunciada a equipa da casa e todos os jogadores entraram em campo com os cachecóis arco-íris. Nunca antes tinha isto acontecido em Portugal num clube profissional. E por isso fez-se história. Eis o momento para a posteridade:

Mas importa realmente perceber que este não foi um momento meramente simbólico. Este é um momento em que jovens irão assistir e perceber que, não, não estão sós. E, sim, têm no seu clube – ou futuro clube – um espaço seguro onde poderão desenvolver todas as suas qualidades desportivas sem terem que se sentir condicionadas, sem terem que ser menos do que aquilo que são: gays, lésbicas ou bissexuais. É esta a importância do exemplo que o Estoril Praia deu nesta noite, é também este o seu legado para o futuro: sentir Orgulho na identidade de atletas, dirigentes e fãs do clube, enquanto protege as pessoas de qualquer discriminação ou preconceito. E, sim, tomara que assim fosse também nos restantes espaços desportivos.

O desporto, tal como nas restantes áreas sociais e em especial no universal futebol, só terá a ganhar quando proporcionar um ambiente em que seja o talento e o esforço de atletas e equipas a forma de atingirem os seus objetivos, sem receios ou medos de insultos, de violências, de bullying. Porque essas são barreiras que lhes são colocadas por puro preconceito. Espero portanto que os restantes clubes sigam este exemplo e percebam, de vez, que ao derrubarem estes obstáculos atingirão muito mais facilmente, tal como o Estoril Praia nesta noite por um a zero, a vitória. Uma vitória com o delicioso sabor do Orgulho!

Imagem de topo: Estoril Praia.

Nota: Obrigado ao Estoril Praia pelo convite!

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