Dádiva de sangue: Após anos de luta, orientação sexual deixa de ser critério de exclusão

Largos anos passaram de reivindicações contra a discriminação no acesso à dádiva de sangue em Portugal que se baseou em estereótipos para excluir pessoas com base na sua orientação sexual. Na nova norma hoje publicada pela Direção-Geral da Saúde, as regras passam a ser iguais para todas as orientações sexuais na dádiva de sangue. Será desta vez que acontece o fim da discriminação?

Para o secretário de Estado adjunto e da Saúde, António Lacerda Sales, a resposta é afirmativa: a orientação sexual deixa de ser um critério de exclusão.

“A norma relativa à seleção de pessoas candidatas à dádiva de sangue, com base na avaliação de risco individual, passa a aplicar-se a todas as pessoas candidatas à dádiva de sangue, sejam dadoras pela primeira vez ou habituais ou regulares”, explicou António Lacerda Sales.

Ou seja, a orientação sexual deixa de ser um critério de exclusão. A nova norma “estabelece que a pessoa candidata a dádiva deve ser esclarecida e informada, de forma não discriminatória, sobre os comportamentos com potencial ao risco infecioso e também as suas formas de prevenção“.

Estabelece também os períodos de suspensão da dádiva iguais para todas as pessoas, que “serão de 12 meses para pessoas com parceiras ou com prática sexual com pessoa com HIV, hepatite B ou hepatite C“.

De acordo com as novas orientações, ficam sem poder doar sangue durante três meses as “pessoas com contacto sexual com pessoas com comportamento de risco infecioso acrescido para agentes transmissíveis pelo sangue e também de três meses para pessoas com contacto sexual com um novo parceiro ou mais do que um parceiro”, sublinhou.

António Lacerda Sales confirma que o processo envolveu consulta de várias associações, para garantir que as regras não são discriminatórias. Associações como a ILGA Portugal ou o GAT – Grupo de Ativistas em Tratamentos, trabalharam na discussão e resolução destas discriminações que persistiam em Portugal.

A nova norma para acesso à dádiva de sangue esteve em discussão no Podcast Dar Voz A esQrever 🎙🏳️‍🌈

Para a ILGA Portugal, a nova norma toma cariz histórico “por ter contado durante meses com a auscultação, participação e envolvimento da sociedade civil, depois de anos de denúncias e pressão pública pelo fim da discriminação de homens gays e bissexuais dos contextos de dávida“. A associação explicou em comunicado que as normas e práticas anteriores centravam-se, erradamente, num conceito de Grupo de Risco, visão baseada no preconceito que as evidências científicas vieram finalmente desconstruir.

Há nesta norma um reconhecimento expresso e cabal de que não existe evidência científica que corrobore um período de suspensão da dádiva de sangue em função da orientação sexual, uma reivindicação antiga da ILGA Portugal e do GAT – Grupo de Ativistas em Tratamentos, cujas visões estratégicas junto do Governo, da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género,  do Instituto Português do Sangue e da Transplantação e da DGS foram fundamentais para garantir uma primeira grande vitória – Marta Ramos, Diretora Executiva da ILGA Portugal.

Esta é igualmente a primeira norma com linguagem inclusiva, em cumprimento das boas práticas para a Administração Pública decorrentes do V Plano Nacional para a Igualdade de Género, Cidadania e Não-Discriminação e do Manual do Conselho da União Europeia. É também de destacar a menção explícita dos princípios da igualdade e não-discriminação, previstos no art.º 13.º da Constituição da República Portuguesa e da Base 2 da Lei de Bases da Saúde, bem como na Resolução da Assembleia da República n.º 39/2010 de 7 de maio.

A ILGA Portugal destaca ainda a inclusão de uma nota revogatória e exclusiva para impedir que a interpretação da norma possa ser feita à luz de preconceitos ou documentos publicados paralela ou anteriormente. A Associação considera agora ser fundamental a aplicação de campanhas alargadas de formação e sensibilização, principalmente junto de profissionais de saúde que trabalham nesta área e nos vários pontos de recolha de sangue por todo o país.

Em termos de espaço a melhorias, a mais antiga associação portuguesa pelos direitos das pessoas LGBTI considerou que o questionário a apresentar às pessoas candidatas à dádiva de sangue ainda confunde os conceitos de sexo, identidade e características sexuais, erradamente ligando as pessoas intersexo a identidades e expressões de género não binárias. A associação prometeu continuar trabalho no sentido desta correção.

Atualização 8 de outubro:

O Parlamento aprovou hoje o fim da discriminação na dádiva de sangue com base na orientação sexual. As propostas do PS, BE, e da deputada não inscrita Cristina Rodrigues reuniram os votos favoráveis de todos os partidos e deputadas não inscritas. Já a iniciativa do PAN, recebeu a abstenção do CDS-PP e o apoio dos restantes.

A ILGA Portugal reiterou que “há ainda muito trabalho pela frente na doação de sangue, seja através da sensibilização, formação e capacitação das pessoas profissionais de saúde que trabalham na área como também pela necessidade de mudança de critérios em relação à dádiva de sangue de pessoas trabalhadoras do sexo e utilizadoras de drogas inaláveis e injetáveis ou da clarificação de critérios, nomeadamente, relativos a pessoas em tratamentos hormonais.“


Ep. 260 – ESPECIAL Autodeterminação de género: comunidade, famílias e especialistas no Parlamento – Dar Voz a esQrever: Notícias, Cultura e Opinião LGBT 🎙🏳️‍🌈

Nos dias 22, 25 e 26 de setembro, a Assembleia da República ouviu associações, famílias, pessoas trans e especialistas no âmbito da discussão, na especialidade, de três projetos de lei sobre autodeterminação de género apresentados por Chega, PSD e CDS-PP que pretendem reverter a lei de 2018.Neste episódio especial do Podcast Dar Voz a esQrever, reunimos algumas dessas intervenções.O foco está nas vozes da comunidade, de quem trabalha diariamente no terreno, de mães e pais de jovens trans e de especialistas das áreas da sociologia, psicologia, psiquiatria, pedopsiquiatria e endocrinologia.Optámos por não incluir intervenções que reproduzam discursos LGBTIfóbicos ou coloquem em causa a dignidade e os direitos das pessoas trans. O objetivo deste episódio é dar espaço a quem vive estas realidades, acompanha pessoas e famílias ou trabalha e investiga nestas áreas. As sessões completas estão disponíveis no site do Canal Parlamento.Artigos mencionados no episódio:Lei Histórica de Autodeterminação de Género Aprovada no Parlamento PortuguêsReino Unido: suicídios entre jovens trans aumentaram durante restrições aos cuidados de saúdeRelatório Cass: Entre a evidência científica e a instrumentalização da saúde de jovens TransPSD, Chega e CDS aprovam retrocesso na autodeterminação de género: Lei atual mantém-se por agora, mas futuro é incertoAlterações de nome e género aumentam em Portugal num ano marcado pela ameaça à lei da autodeterminaçãoAté onde nos trouxe o movimento de conquista de direitos para pessoas trans?Ordem dos Médicos critica projetos da direita sobre identidade de género: “não refletem o conhecimento médico atual”ONU pede retirada de projetos do PSD, Chega e CDS que alteram lei da autodeterminação de géneroMais de 60 entidades subscrevem comunicado que denuncia retrocesso nos direitos trans e intersexo: “A nossa autonomia não é debatível”Nenhum direito vive sozinho: porque a luta LGBTQIA+ precisa de ser interseccionalCAPÍTULOSComunidade e associações00:04:18 — Jo Matos, rede ex aequo00:06:29 — Tiago Sampaio, rede ex aequo00:10:29 — António Vale, AMPLOS00:12:55 — Patrícia Almeida, AMPLOS00:17:39 — Rita Paulos, Casa Qui00:22:49 — Beatriz Flores, ILGA Portugal00:26:57 — Daniela Bento, ILGA Portugal00:30:12 — Jo Rodrigues, Anémona00:36:40 — Helder Bértolo, Opus DiversidadesEspecialistas — intervenções iniciais00:43:35 — Sandra Saleiro, socióloga e professora universitária00:52:50 — Carla Moleiro, psicóloga clínica e professora universitária01:00:13 — Zélia Figueiredo, médica psiquiatra01:07:32 — Rui Ferreira Carvalho, médico especialista em pedopsiquiatria01:15:00 — Miguel Saraiva, médico endocrinologistaEspecialistas — respostas às questões colocadas01:22:12 — Sandra Saleiro01:30:03 — Carla Moleiro01:37:38 — Zélia Figueiredo01:43:28 — Rui Ferreira Carvalho01:49:01 — Miguel Saraiva#LGBTQ #DireitosLGBTQ #DireitosTrans #Intersexo #Autodeterminação #Portugal
  1. Ep. 260 – ESPECIAL Autodeterminação de género: comunidade, famílias e especialistas no Parlamento
  2. Ep. 259 – ESPECIAL: A luta pela autodeterminação de género e contra as práticas de conversão em Portugal
  3. Ep. 258 – UE protege mulheres trans, Chicão muda de opinião & Women Talking + Young Hearts

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6 respostas a “Dádiva de sangue: Após anos de luta, orientação sexual deixa de ser critério de exclusão”

  1. […] trans no desporto escolar (não só). Ainda falamos do finale da terceira temporada da novela da dádiva de sangue antes fazermos a vénia a Janelle Monáe depois do texto do André Malhado. E ainda usamos o Dar […]

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  2. […] 1974: 25 de Abril1982: Homossexualidade descriminalizada1999: Homossexuais e bissexuais podem servir abertamente nas Forças Armadas2004: A orientação sexual é incluída na Constituição Portuguesa no artigo 13º – Princípio da Igualdade2010: O Casamento é estendido a casais de pessoas do mesmo sexo2015: Parlamento aprova adoção e apadrinhamento civil de crianças por casais do mesmo sexo2018: Lei da autodeterminação de género2021: Fim da discriminação na dádiva de sangue […]

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  3. […] IPST lembrou por fim que a norma relativa à elegibilidade do dador de sangue foi, entretanto, atualizada em março passado e que, desde essa altura, “a avaliação das pessoas candidatas à dádiva de sangue […]

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  4. […] a décadas de 1990 que tem sido feito um trabalho tremendo para desconstruir a ideia de “grupos de risco” e tomar antes a cientificamente correta “comportamentos de risco“. Reforço, […]

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  5. […] ao longo das décadas: o casamento, a adoção, o reconhecimento das identidades trans, o fim da discriminação na dádiva de sangue, a criminalização das “terapias de conversão” – tudo isso veio muito depois da Revolução […]

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  6. […] Desde 2021 que o acesso à dádiva de sangue em Portugal, que outrora se baseou em estereótipos e em informação desatualizada, deixou de ter como critério a orientação sexual. […]

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