A vitória de Péter Magyar na Hungria: uma esperança frágil para os direitos LGBTI+

A vitória de Péter Magyar na Hungria: uma esperança frágil para os direitos LGBTI+

Fotografia por Norbert Banhalmi (Wikimedia Commons)

Péter Magyar venceu as eleições húngaras com uma promessa de mudança, pondo fim a 16 anos de governação de Viktor Orbán, conhecido pela repressão sistemática aos direitos LGBTI+. Mas o que significa esta vitória para o futuro da comunidade?

Embora a vitória de Péter Magyar tenha sido celebrada como um triunfo democrático, este evitou assumir compromissos com a igualdade de género e a proteção da comunidade queer. A pergunta que se coloca agora é se o novo governo irá – e conseguirá – reverter as leis discriminatórias de Viktor Orbán — como a proibição das Marchas do Orgulho e a criminalização da “promoção” da homossexualidade a menores — ou se a luta pelos direitos LGBTI+ na Hungria continuará a depender da pressão popular e internacional.

A queda de Orbán celebrada por (quase) todo o mundo

A vitória de Magyar e do partido Tisza nas eleições húngaras marca o fim da governação de Orbán, um dos líderes mais controversos da União Europeia. Orbán, aliado de Donald Trump e Vladimir Putin, construiu um legado de autoritarismo, corrupção e perseguição sistemática a minorias, incluindo a comunidade LGBTI+. A sua derrota abre uma janela de esperança para a democracia húngara e para os direitos humanos, mas a comunidade LGBTI+ olha para o futuro com cautela: Péter Magyar, apesar das promessas de mudança, evitou assumir um compromisso com a igualdade de direitos.

Orbán não governou apenas com políticas conservadoras — governou com uma campanha sistemática contra os direitos LGBTI+, disfarçada de “proteção das crianças”. Em 2021, o seu governo aprovou uma lei que proíbe a “promoção” de homossexualidade ou mudança de género a menores, equiparando conteúdos LGBTI+ a temas como drogas, violência e horror.

Em 2025, a proibição das Marchas do Orgulho em Budapeste e Pécs representou um novo patamar de repressão, justificado com o mesmo argumento. A resposta da comunidade foi massiva: mais de 200 mil pessoas desafiaram a lei em Budapeste, vestindo-se de cinzento num protesto simbólico que transformou as ruas da capital num “Orgulho Cinzento”.

Em Pécs, centenas marcharam apesar das ameaças de multas e processos criminais. A retórica de Orbán não só limitou direitos como alimentou um clima de hostilidade — casos de violência contra pessoas LGBTI+ tornaram-se mais frequentes, com agressões e perseguições justificadas com a ideologia governamental.

A nível internacional, a Hungria de Orbán tornou-se um alvo de críticas. Vinte países da União Europeia, incluindo Portugal, exigiram ação da Comissão Europeia contra a proibição das Marchas do Orgulho, invocando a liberdade de expressão e os direitos fundamentais. A lei de 2021 já está a ser contestada no Tribunal de Justiça da UE, mas o dano está feito: uma geração de jovens LGBTI+ cresceu num ambiente de criminalização e medo.

A esperança em Péter Magyar ainda é vaga sobre direitos LGBTI+

Péter Magyar assumiu um discurso de união nacional, prometendo trabalhar para toda a população húngara e “libertar a Hungria da mentira”. A sua vitória foi celebrada como um triunfo democrático, com a União Europeia a saudar o “espírito democrático” do povo húngaro. No entanto, quando se trata de direitos LGBTI+, as suas posições são vagas. Magyar prometeu proteger o direito de reunião — uma referência indireta à proibição das Marchas do Orgulho — mas não mencionou a revogação das leis anti-LGBTI+ nem a proteção específica das pessoas trans e queer.

Durante a campanha, ativistas como Géza Buzás-Habel, organizador da Pécs Pride e agora alvo de processos criminais, criticaram a falta de posicionamento: “O principal opositor não está disposto a comunicar sobre os direitos LGBTI+, por isso temos de pressioná-lo.”

A estratégia de Magyar pareceu passar por evitar o tema LGBTI+ para não alienar pessoas conservadoras em cidades pequenas, apostando que a base urbana anti-Orbán o apoiará de qualquer forma. Esta abordagem, no entanto, deixa a comunidade LGBTI+ numa posição frágil. Mesmo que Orbán tenha saído do poder, as leis que aprovou permanecem, e a sua influência no parlamento e na sociedade não desapareceu.

Hella Zsirka, ativista trans e diretora interina da Hatter Society, resume o sentimento de desilusão ao ver “o nosso tema ser ignorado, mas politicamente faz sentido. Orbán subestimou o humor público sobre as Marchas do Orgulho, e agora é a nossa vez de pressionar.

A vitória de Magyar é, portanto, um passo importante, mas não suficiente em si. A comunidade LGBTI+ húngara continua a enfrentar uma batalha diária pela dignidade e pelos direitos básicos. A esperança existe, mas depende agora da pressão interna e externa para garantir que o novo governo cumpra as suas promessas.

Como disse Magyar no discurso de vitória, “o amor venceu hoje, porque o amor vence sempre.” Mas o amor, sozinho, não derruba leis e urge assim continuar a lutar pela liberdade e igualdade dentro da União Europeia.


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2 respostas a “A vitória de Péter Magyar na Hungria: uma esperança frágil para os direitos LGBTI+”

  1. […] minar os direitos de um grupo minoritário e desumanizar pessoas LGBTI+. Esta decisão coloca o novo governo húngaro, liderado por Péter Magyar, perante um teste crucial: será que as suas promessas pró-UE se traduzirão em ações […]

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  2. […] Na noite da vitória eleitoral, Magyar afirmou querer uma Hungria onde “ninguém seja estigmatizado por pensar ou amar de forma diferente da maioria“. Mais recentemente, apelou ao Fidesz para que “saia dos quartos dos húngaros“. […]

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