O Que Significam Os Campos De Concentração Para Gays Tchetchenos?

Passou uma semana desde que foi noticiado o sequestro de dezenas de pessoas na Tchetchénia, alegadamente por serem ou suspeitar-se de serem homens gays. Ficámos a saber então que as autoridades daquela república negaram as acusações afirmando que não havia homens gays na região e, pior ainda, que se os houvesse a própria família trataria de os fazer desaparecer.

Esta semana surgiram novos indícios do extremismo da situação na região do Cáucaso: as dezenas de homens foram levados para campos de concentração. Mais, estão a ser administrados choques elétricos e espancados, terminando com a morte de algumas destas vítimas.

É difícil compreender na totalidade a gravidade de uma situação destas. Há neste momento pessoas que estão a ser torturadas para denunciarem outras pessoas que sejam ou julguem ser gays. O clima de terror naquele território de influência russa é tão avassalador que estas pessoas vêem-se obrigadas a apagar as contas de qualquer rede social que tenham com o receio de serem descobertas e obrigadas a fugir do país. A Russian LGBT Network tem tentado ajudar, como pode, estas pessoas a saírem do país e a sobreviverem a esta perseguição.

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Localização de um dos campos de concentração em Argun (Imagem: novayagazeta.ru)

 

Os relatos que têm surgido são especialmente macabros. Mesmo quando algumas destas vítimas são libertadas destes campos e devolvidas às suas famílias, acontece que geralmente isto é uma sentença de morte. Na Tchétchénia imperam os chamados “crimes em defesa da honra“, em que indivíduos considerados infratores são mortos pela própria família. Isto acontece frequentemente com jovens mulheres, mas também com homens gay. Quando os tchetchenos gays sobrevivem aos maus-tratos e torturas e saem, de alguma forma, daqueles campos de concentração, são frequentemente levados pelos seus familiares, homens, para lugares remotos. Aí são mortos e enterrados. Ninguém os procura sequer.

É este silêncio que nos deve preocupar. Passaram-se décadas desde a libertação de prisoneiros e prisoneiras do Holocausto, mas recordemos que o sofrimento de homossexuais nos campos de concentração nazis não foi reconhecido em vários países. Ironicamente, alguns deles foram novamente presos dadas as políticas homofóbicas que os consideravam criminosos sexuais, políticas estas que permaneceram ativas na Europa durante várias décadas. Foi apenas a partir das décadas de 1970 e 1980 que, finalmente, começaram a surgir Governos a reconhecer os homossexuais como vítimas do Holocausto. Apenas em 2002 é que um Governo alemão pediu formalmente desculpa à população gay. Importa reter este ponto: foi preciso meio século para que a Alemanha reconhecesse o sofrimento causado às vítimas LGBTI. Cidadãos e cidadãs de segunda, uma e outra vez.

Mas foi possível reverter a situação. Depois de anos em nova perseguição e criminalização da população LGBTI, esta conseguiu alcançar a visibilidade necessária para que se fizesse notar, para que fosse impossível ignorá-la. E isso aconteceu com a publicação das memórias de sobreviventes LGBTI, décadas mais tarde, quando por fim venceram o estigma a si associados.

Ora, num mundo de informação instantânea e global, essas publicações, essas memórias dos gays tchetchenos perseguidos, torturados e assassinados existem já hoje. O mundo não precisa, nem pode, voltar a esconder e a virar a cara a estas vítimas. Porque não precisamos, nem podemos, permitir que nos voltem a tratar como cidadãos e cidadãs de segunda. Façamo-nos, pois, ouvir.

Fonte: Imagem.

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