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Pride ou Portugal dos Pequeninos?

Marcha Orgulho LGBT Lisboa 2017 12

Ontem, do Príncipe Real à Ribeira das Naus, a Marcha do Orgulho LGBT encheu as ruas de Lisboa com cerca de 10.000 pessoas, segundo a RTP. Foi mais um ano em que a multidão se fez sentir. Volumosa. Corajosa. Orgulhosa. Ver aquele mar a descer a Rua do Alecrim até ao Cais do Sodré foi absolutamente arrepiante e comovente. Pela força. Pelo amor. Mas no palco dos discursos finais a história foi outra e as batalhas internas que me entristecem entre pessoas que (não) se unem para uma causa comum vieram à tona. A polémica do ano foi uma das associações decidir convidar um banco e uma discoteca para marcharem a seu lado. Tal como acontece em todos os Prides do Mundo. Um sinal de visibilidade não só de apoio às pessoas LGBT que empregam como também uma promessa explícita de não discriminação das pessoas LGBT no uso desses serviços. Basta ir ao site da Marcha de Nova Iorque para ver T-Mobile, TD Bank, Coca-Cola, Facebook, Axa, Hilton, e muitos outros, como alguns dos patrocinadores e apoiantes dos Pride.

Mas cá não. Não podemos ter bancos nem empresas privadas a marcarem presença numa marcha de orgulho LGBT. É aproveitamento gratuito. Eles são o inimigo. Fascistas. Trump. Epá, tretas. Esta atitude de sermos radicalistas de extrema esquerda é bué de cute quando estamos em idade de liceu e gritamos no Avante que o Che é que devia ter sido presidente do Mundo para ganharmos pontos de coolness dos amigos que te estão a enrolar a broca. Faz parte da adolescência fazer a rebelião no-matter-what contra os poderes vigentes e as autoridades, mesmo quando até podem ter alguns dos teus interesses em vista. Mas quando crescemos vamos maturando a maldita visão do Mundo em que estamos instalados e percebemos que ser rebelde e anti-tudo “só porque sim” e nos apetece muito cuspir nos olhos de todos aqueles que encontram os nossos… já não é assim tão cute. Quando não estamos dispostos a entrar em diálogo e valorizar aqueles que nos apoiam porque só queremos continuar a dar murros e pontapés fantasma em todas as direcções, isso é imaturo. E totalmente contraproducente.

Queremos continuar a mandar ácido para cima daqueles que nos tentam apoiar contra todas as probabilidades da realidade em que (ainda) vivemos? Ou recusar estar presente no mesmo palco de alguém que faça parte do sistema? Com que propósito? Quando, no final da Marcha, se tem o desplante de (tentar) vaiar uma pessoa como a Catarina Marcelino, secretária de estado para a Igualdade Cidadania e que tanto tem feito pela defesa e representação social das pessoas LGBT em Portugal… Não. Nem pensar. Ser reaccionário por definição e achar que qualquer pessoa que trabalhe no/com o sistema é abominável ultrapassa os limites da tolerância que qualquer pessoa pode ter connosco. Não reconhecermos o inimigo numa altura em que pessoas são presas em campos de concentração, violentadas ou assassinadas por serem homossexuais ou trans já não é meramente infantil. É insultuoso para todas essas pessoas.

No passado, muitas vezes me questionei do porquê das grandes e pequenas marcas e entidades privadas portuguesas não apoiarem publicamente a comunidade LGBT. Cheguei mesmo a acusá-las de medo da perceção pública e de homofobia. Pois que é possível que não seja nada isso. Aquele banco meteu a cabeça de fora e levou uma cachaporrada. Irão certamente pensar duas vezes antes de participarem novamente no próximo ano. A pequenez tacanha que nos continua a minar enquanto povo mina também, com fervor auto-declarado e *gulp* orgulho, a comunidade LGBT. E enquanto não sairmos desta “idade do armário” – pun intended – continuaremos a ser vistos como extremistas num ghetto de idealismo marxista inalcançável e adolescentes de postura infrutífera que jamais entram em diálogo inclusivo com aqueles que até os querem compreender e apoiar. As nossas lutas não acabaram, são gargantuanas e diariamente precisamos de consolidar aquilo que fomos conquistando com o risco cada vez mais premente de as perdermos. Por isso, rogo que saiamos também deste armário.

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14 Comments »

  1. Concordo com o que aqui foi dito , e acho muito bem que se convidem esses grupos empresariais a juntarem-se à Marcha.
    Lamentavel terem destratado a Secretaria de Estado, que tanto nos tem ajudado, como foi lamentável terem ignorado a inauguração do único monumento até agora feito em Portugal ,uma estatua no Principe Real, contra todos os preconceitos sexuais que têm atormentado durante séculos os lgbti em Portugal.
    As Marchas são muito importantes ,mas passam, as estatuas ficam para o andar dos tempos a marcar uma cidade.
    Foram mesquinhos os que tentaram fazer esquecer e apagar esse evento, como seria mesquinho tentar apagar a Marcha!
    A Opus Gay esta solidaria com ela, mas refere aqui , que há muitos anos que há muitas divisões, alimentadas propositadamente, entre associações para promover umas, em beneficio de outras. E digo-o em nome desta associação que tem 20 anos , e como o mais antigo militante desta causa, pois sou-o desde 13 de Maio de 1974, quando amigos meus e eu, fizemos sair nos jornais de Lisboa, D.N e Dde Lisboa o 1º Manifesto sobre a homossexualidade,proposidatamente esquecido, há 43 anos, chamado”Liberdade para as Minorias Sexuais! e que fez generais vir a RTP-Galvão de Melo- dizer que o 25 de Abril “não se fizera para os homossexuais e as prostitutas reivindicarem o que quer que fosse”.

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    • Obrigado pelas suas palavras, caro António.

      Partilhámos a inauguração do monumento pelas nossas várias redes sociais com um forte sentimento de orgulho. É, como diz, um símbolo que fica.

      Quanto à presença de (grupos LGBTI de) empresas na Marcha arrisco a dizer que é um facto inevitável e quem as deseja lá está longe de ter uma ideia minoritária, abracemo-la portanto.

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  2. Simplista e parcial. A Marcha não é um suporte publicitário, muito menos para um dos maiores bancos do lóbi do petróleo e do carvão, conivente com a ditadura militar birmanesa vir fazer de defensor dos Direitos Humanos. Acusar a organização da Marcha do Orgulho de ser responsável pela não adesão à causa do empresariado português é só… má fé. Violar conscientemente as regras democraticamente definidas pela organização da Marcha impondo a participação de uma grande marca comercial é uma violência cometida sobre a Marcha e um desrespeito claro pelas quase 30 organizações que a organizam ao longo de todo o ano. Misturar a justa indignação de quem protestou contra esse facto consumado com o acto individual da pessoa que interrompeu a Secretária de Estado, também é pelo menos uma grande confusão, pois o protesto contra o banco não interrompeu ninguém. Assim como – António- misturar este episódio com o da inauguração do monumento pois, como sabes, também estive presente nessa inauguração, e não é por isso que cauciono o comportamento do BNP Paribas. Uma coisa é haver um grupo de trabalhadores que marcha enquanto trabalhadores lgbt da empresa ‘x’, seja por visibilidade, seja para denunciar situações laborais, seja até para mostrar um exemplo de boas práticas laborais contra a discriminação, outra bem diferente é um banco, com boas práticas ou não – aproveitar a ida dos seus trabalhadores para utilizar a Marcha como terreno de “marketing social”. Mas, de resto, penso que a generalidade deste texto reflecte já uma parcialidade e um preconceito ideológico, patente aliás nessa ideia de que um banco pode ser “pessoa de bem”. Sou co-fundador, com muito Orgulho, da nossa Marcha. Ela foi criada para a expressão da população lgbt, não das suas empresas ou entidades patronais. Se há uma parte minoritária do activismo – ou outras pessoas – que preferem ter uma parada tecno financiada pelo big money e uma marcha transformada num grande negócio em vez do evento que tanta visibilidade e capacidade reivindicativa – porque político – trouxe à comunidade ao longo de 18 anos, penso que esses activistas, essas pessoas, devem organizar a referida parada e ser felizes – até poderei ir dar um passinho de dança, mas tenho interesse zero em organizá-la – , não a confundam é com a Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa.

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    • Respeitando o percurso do Sérgio na luta pelos direitos das pessoas LGBT em Portugal, pergunto-me qual será o propósito da Marcha a longo-prazo. Se se pretende que continue a ser uma manifestação anti-sistema e anti-capitalista e não uma real representação da pluralidade das pessoas LGBT em Portugal – vá-se lá imaginar que elas estavam inclusivamente a marchar com t-shirt do BNP – então que haja também honestidade em relação a isso. E se a minoria são as pessoas que querem que o Pride cresça e seja sustentado e apoiado por todo o tipo de empresas e instituições de caráter não político estamos bem tramados. Felizmente isso não é verdade e a minoria não é essa de todo. Cumprimentos parciais.

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  3. Antes de se tomar um partido e partir para agressão ha que perceber o contexto. O Bnp paribas nao so nao foi patrocinador da marcha (nem tentou!) como não distribuiu flyers nem sequer tinha um grito de guerra (ao contrario de outros completamente descontextualizados com a marcha LGBT e que bem se ouviram). De referir que o grupo do BNP que marchou ontem se tratava de um grupo de funcionarios a maioria bem jovens alguns com não mais de 6 meses na casa, lgbt ou apoiantes, e que por se sentirem apoiados, realizados e respeitados na empresa onde trabalham (e respeitados não de forma falsa mas real, no seu dia a dia laboral, fora de marchas ou merchandising) se sentiram felizes o suficiente para querer marchar com a camisola do seu local de trabalho…e apenas com o mero intuito pessoal de partilhar e contagiar esta possibiliade que começamos a viver no mundo de hoje e que deviamos ostentar com orgulho! e não com desdém: a de ser LGBT e poder trabalhar livremente em qualquer tipo de empresa sem necessitar de esconder parte da sua identidade. Essa foi de coração a premissa que moveu esse grupo em especifico, que como parte da comunidade lgbt se sentiram simplesmente traidos. De salientar que foi uma decisao que partiu dos funcionarios LGBT do banco e nao de uma proposta feita pelo banco. De referir ainda que andar com uma t-shirt a dizer bnp/zara/nike/ou qq outra marca nao menos capitalista não é assim tão diferente, nem tão mau…afinal tudo isso…todos nós, somos Mundo.

    Ass.: Funcionária publica, sem acções no BNP Paribas ou petrolíferas associadas.

    Obrigada pelos artigos Escrever

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    • Obrigado pelas suas palavras e explicações, totalmente de acordo. Da nossas parte, o grupo de pessoas do BNP Paribas é muito bem-vindo, aliás, fizemos questão de o fotografar e partilhar. A igualdade cabe a tod@s 🌈

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  4. “Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és.”
    Este post toma uma série de liberdades retóricas que se calhar merecem ser contestadas. A aceitação de patrocínios comerciais com interesses e agendas políticas privadas por parte de um evento que é, pela sua natureza, político e reivindicativo, seria um tiro no pé, e não é preciso teorizar muito sobre isto. Basta ver o um exemplo prático muito famoso de como um protesto LGBTI é facilmente comprometido por se tornar dependente de interesses comerciais: https://www.theguardian.com/commentisfree/2013/apr/27/bradley-manning-sf-gay-pride (atenção que até estamos aqui a falar dos direitos de uma LGBTI concreta)

    A lógica subjacente no seu post parece-me poder ser resumida a isto: é mais importante a qualidade da festa do que um posicionamento político claro. Será que uma rave à maneira seria um indicador mais acertado de progresso civilizacional?

    Deixe de fingir que a sua opinião não é ela própria ideológica. O capitalismo pode ter reclamado para si o discurso do progresso, mas essa é uma retórica vazia que não se compagina com a realidade (a exploração de trabalhadores e ecossistemas aqui ou em países que não conhecemos como se fossem fontes sem fim de onde saiem os nossos iPhones, etc., é progressista? Se essas formas quotidianas de exploração, que afectam LGBTIs e não-LGBTIs de igual maneira, são aceitáveis para um residente burguês de Williamsburg, Camden ou Kreuzberg, esses bastiões de cosmopolitismo e sofisticação, então também devem ser aceitáveis para mim? Sabe, todas essas coisas irrelevantes que interessam aos ‘marxistas’). Qualquer reivindicação ou forma de afirmação política por parte de LGBTIs só pode ser hipócrita se não se comprometer com outras lutas de grupos e agências oprimidas por cá e por esse mundo fora (por falar em Portugal dos pequeninos; mas suponho que seja mais *cool* ter a cabeça em Nova Iorque do que na Birmânia, como o sergiovitorino referiu a propósito do BNP).
    O que é que estruturas activistas e populares ganham em tornar-se dependentes de interesses privados? O que é que uma plataforma política como a marcha LGBT ganha com patrocínios de um banco? Um sistema de som melhor? Mais autocarros? Mais festa? Eu não quero festa (se bem que me diverti imenso na marcha), quero que a multiplicidade de pessoas que se juntam à marcha LGBT sejam reconhecidas como uma força política com expressão, e não (apenas) como um grupo de partygoers.

    Ainda sugere numa resposta que a aceitação do patrocínio de um banco de alguma forma seria mais inclusivo dos grupos que integram a marcha. Escolhe ignorar, portanto, que esse patrocínio excluiria por princípio muitos dos grupos que participaram na marcha e que não o fariam se houvesse uma agenda financeira envolvida (como se verificou nas muitas intervenções na ribeira das naus). Mas afinal, inclusão para quem? Que vozes políticas é que têm o direito de se manifestar na marcha, a seu ver? Por favor, que se forme um grupo de bancários LGBTI inconformados que manifestem a sua posição no palco.

    Deixe-me ainda acrescentar que acho insuportável a recorrência de argumentos (visivelmente baseados na falta de capacidade retórica) que remetem a “esquerda”, o “anti-capitalismo”, etc, para os sonhos de juventude e coisas que se dizem quando não sabemos do que estamos a falar. Há literatura extensa sobre essas coisas, não projecte a sua ignorância nos outros (e estou a dizer-lhe isto assim porque resolveu insultar no seu post todos os anti-capitalistas presentes na marcha). Tenha também mais em consideração a forma como estruturas políticas, económicas e sociais (como o capitalismo) estão relacionadas com as formas de opressão e exploração que afectam especificamente ou não LGBTIs.

    Estou a falar na qualidade de quem participou na marcha pela primeira vez porque, por ignorância, assumia que seria menos protesto e mais festa, como é nesses sítios de gente mais fixe. O meu coração encheu-se quando me foi explicado que essa proposta de patrocínio do BNP foi recusada. Assim sendo, voltarei a lá estar para o ano que vem. Se fosse de outra forma, nunca mais meteria lá os pés.

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  5. Concordo a 100%. Considero que está haver uma grande mistura entre parada de orgulho gay e interesses políticos. Para isso a organização deveria fazer um partido político, com uma manifestação política e não usar o “nome Marcha LGBT” para esses fins. Afinal não deveríamos estar a celebrar a nossa identidade enquanto seres humanos?
    Por exemplo: alguma vez viram outra marcha LGBT? Onde há entidades, marcas, discotecas, bares, lojas de roupa que orgulhosamente participam demonstrando assim a sua pluralidade de género?

    Aconselho vivamente os organizadores da marcha a não tornar algo que não é o que nos representa, mas sim celebrar a nossa identidade junto dos que nela pertencem (a nossa comunidade) e todos os que nos apoiam, aceitam etc. ou vamos hostilizar algo que lutamos para ter?

    Vergonha que tenho em dizer que faço parte de uma comunidade eu descrimina.

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  6. Muita exasperação em alguns discursos no final da marcha deste ano. Como se Lisboa fosse o mais perigoso lugar do mundo para a população lgbt. Sei que não estamos no Paraíso, mas… há, em Lisboa, estas duas orientações aparentemente inconciliáveis na movimentação lgbt: uma que defende uma orientação política de estrita pureza anti-sistema (não às empresas do mundo capitalista); outra que defende a identidade sexual enquanto critério distintivo, independentemente das cores políticas (à esquerda ou à direita), sem rejeição do patrocínio de empresas capitalistas, posto que não haja empresas não-capitalistas… Nota final: estive em marchas anteriores em Madrid, e havia muita festa, é sempre uma gigantesca discoteca ao ar livre, muita cerveja (capitalista e clandestina) e muitas empresas: de transportes, de vestuário, de hotelaria, etc…. e é verdade que é um negócio, aliás o maior negócio anual de Madrid, em muitos milhões de euros.

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  7. Talvez não tenha sido claro no comentário imediatamente anterior. Não tenho verdades ready made (nem revolucionárias nem conservadoras)… mas a injunção que procurei deixar, julgo que era clara: qual o critério para uma marcha, um desfile, uma parada, uma rave, uma festa, seja o que for, que se denomine lgbt: o da reivindicação por uma política (“da sexualidade”, etc.) anti-sistema (anticapitalista); ou o da visibilidade de identidades sexuais (situada num âmbito cívico, que também é político, mas não partidarista)? .

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