Pride ou Portugal dos Pequeninos?

Ontem, do Príncipe Real à Ribeira das Naus, a Marcha do Orgulho LGBT encheu as ruas de Lisboa com cerca de 10.000 pessoas, segundo a RTP. Foi mais um ano em que a multidão se fez sentir. Volumosa. Corajosa. Orgulhosa. Ver aquele mar a descer a Rua do Alecrim até ao Cais do Sodré foi absolutamente arrepiante e comovente. Pela força. Pelo amor. Mas no palco dos discursos finais a história foi outra e as batalhas internas que me entristecem entre pessoas que (não) se unem para uma causa comum vieram à tona. A polémica do ano foi uma das associações decidir convidar um banco e uma discoteca para marcharem a seu lado. Tal como acontece em todos os Prides do Mundo. Um sinal de visibilidade não só de apoio às pessoas LGBT que empregam como também uma promessa explícita de não discriminação das pessoas LGBT no uso desses serviços. Basta ir ao site da Marcha de Nova Iorque para ver T-Mobile, TD Bank, Coca-Cola, Facebook, Axa, Hilton, e muitos outros, como alguns dos patrocinadores e apoiantes dos Pride.

Mas cá não. Não podemos ter bancos nem empresas privadas a marcarem presença numa marcha de orgulho LGBT. É aproveitamento gratuito. Eles são o inimigo. Fascistas. Trump. Epá, tretas. Esta atitude de sermos radicalistas de extrema esquerda é bué de cute quando estamos em idade de liceu e gritamos no Avante que o Che é que devia ter sido presidente do Mundo para ganharmos pontos de coolness dos amigos que te estão a enrolar a broca. Faz parte da adolescência fazer a rebelião no-matter-what contra os poderes vigentes e as autoridades, mesmo quando até podem ter alguns dos teus interesses em vista. Mas quando crescemos vamos maturando a maldita visão do Mundo em que estamos instalados e percebemos que ser rebelde e anti-tudo “só porque sim” e nos apetece muito cuspir nos olhos de todos aqueles que encontram os nossos… já não é assim tão cute. Quando não estamos dispostos a entrar em diálogo e valorizar aqueles que nos apoiam porque só queremos continuar a dar murros e pontapés fantasma em todas as direcções, isso é imaturo. E totalmente contraproducente. 

Queremos continuar a mandar ácido para cima daqueles que nos tentam apoiar contra todas as probabilidades da realidade em que (ainda) vivemos? Ou recusar estar presente no mesmo palco de alguém que faça parte do sistema? Com que propósito? Quando, no final da Marcha, se tem o desplante de (tentar) vaiar uma pessoa como a Catarina Marcelino, secretária de estado para a Igualdade Cidadania e que tanto tem feito pela defesa e representação social das pessoas LGBT em Portugal… Não. Nem pensar. Ser reaccionário por definição e achar que qualquer pessoa que trabalhe no/com o sistema é abominável ultrapassa os limites da tolerância que qualquer pessoa pode ter connosco. Não reconhecermos o inimigo numa altura em que pessoas são presas em campos de concentração, violentadas ou assassinadas por serem homossexuais ou trans já não é meramente infantil. É insultuoso para todas essas pessoas.

No passado, muitas vezes me questionei do porquê das grandes e pequenas marcas e entidades privadas portuguesas não apoiarem publicamente a comunidade LGBT. Cheguei mesmo a acusá-las de medo da perceção pública e de homofobia. Pois que é possível que não seja nada isso. Aquele banco meteu a cabeça de fora e levou uma cachaporrada. Irão certamente pensar duas vezes antes de participarem novamente no próximo ano. A pequenez tacanha que nos continua a minar enquanto povo mina também, com fervor auto-declarado e *gulp* orgulho, a comunidade LGBT. E enquanto não sairmos desta “idade do armário” – pun intended – continuaremos a ser vistos como extremistas num ghetto de idealismo marxista inalcançável e adolescentes de postura infrutífera que jamais entram em diálogo inclusivo com aqueles que até os querem compreender e apoiar. As nossas lutas não acabaram, são gargantuanas e diariamente precisamos de consolidar aquilo que fomos conquistando com o risco cada vez mais premente de as perdermos. Por isso, rogo que saiamos também deste armário.

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