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Contra as ‘terapias de conversão’

As chamadas ‘terapias de conversão’, estão hoje no centro das atenções após reportagem e debate ocorrido na TVI e TVI24. Estas ‘terapias’ têm sido amplamente desacreditadas por grandes associações de psicoterapia e médicas em muitos países, incluindo o Canadá, os EUA e o Reino Unido, e tem a oposição da Organização Mundial da Saúde e das Nações Unidas. A Associação Americana de Psicologia reafirmou que os psicólogos e psicólogas devem “entender que orientações gay, lésbica e bissexual não são doenças mentais”, pelo que não são passíveis de ser “tratadas”.

O Governo britânico anunciou inclusive a intenção de, tal como outros países, proibir as chamadas “terapias de conversão” ou de “reorientação sexual”, em resposta a um grande estudo que concluiu que 2% dos 108 mil membros da comunidade LGBT inquiridos no país já foram alvo deste tipo de prática. Outros 5% afirmam já lhes ter sido recomendado este tipo de “tratamento”. Mas e em Portugal, tem esta atividade alguma expressão social?

Manuel Esteves, membro da direcção do Colégio da Especialidade de Psiquiatria da Ordem dos Médicos, reitera ao Público a posição há quase uma década declarada por esta entidade:

Não sendo as diferentes orientações sexuais patologias, não cabe lugar a tratamento. A Ordem dos Médicos e a formação dos médicos através da faculdade ensina-nos num sentido da aceitação plena de todos os tipos de orientação sexual — seja ela heterossexual, homossexual ou bissexual.

O psiquiatra diz não ter conhecimento de que “existam pessoas a fazer ‘terapias de conversão sexual’” em Portugal. “Nos últimos 12 anos não houve nenhuma queixa de algum utente ou de algum médico que tivesse a ver com tratamento indevido de orientações sexuais.“Se há”, supõe, “acho que seria importante actualizarmos esses colegas no sentido de compreenderem melhor qual é o estado actual do pensamento médico sobre isto”.

Nuno Carneiro, psicólogo clínico, considera que o guia da Ordem dos Psicólogos Portugueses, divulgado no ano passado, é “um excelente pontapé de saída”, que pode servir igualmente para outras áreas de intervenção, nomeadamente para educadores, tal como para os próprios familiares.

A tentativa de mudança da orientação sexual de uma pessoa, comenta o psicólogo, “é mais do que ineficaz, é profundamente maleficente”. Pode agravar o estado de saúde mental de quem à partida já procurou ajuda para algum tipo de problema, seja depressivo ou de outro tipo. Pode levar ao “abuso de substâncias, abandono escolar, ataques de pânico e sofrimentos de vários tipos atribuídos a patologias que não o são”. E, em casos extremos, ao suicídio. O psicólogo considera pois que a legislação que o Reino Unido está a ponderar aprovar está “absolutamente em falta” em Portugal.

E estará em falta, pois suspeita-se que a maior parte dos casos não são denunciados: “Não há evidência, na maioria dos países na Europa, que estejam em prática as tais ‘terapias’”, diz Marta Ramos, directora executiva da ILGA Portugal. “Mas não quer dizer que não aconteçam“.

Recorda um estudo realizado pela ILGA em 2014 — Saúde em Igualdade: certos “profissionais na área da saúde mental ainda afirmavam poder curar a homossexualidade”; 11% dos participantes que tinham ido a uma consulta com um profissional de saúde mental ou psicoterapeuta declararam que lhes tinha sido sugerido que a “homossexualidade é uma doença e que pode ser ‘curada’”.

A directora executiva da ILGA garante que a associação recebe “de vez em quando pedidos de ajuda de pessoas que, em contexto de saúde mental” foram confrontadas, de algum modo, com a ideia de que a sua orientação sexual pode ser curada ou que lhes pode ser prescrita “alguma medicação”.

Basta recordar os casos de Maria José Vilaça, que comparou um filho homossexual a um filho toxicodependente, ou de Quintino Aires, que considera a homofobia um problema dentro da cabeça dos homossexuais, para perceber que as indicações dos vários organismos, nacionais e internacionais, não são respeitadas por todos os profissionais de saúde em Portugal.

A lei pode não ser suficiente para mudar comportamentos, avisa Nuno Carneiro. Mas terá sempre um efeito nas pessoas, nem que seja “para não incorrerem em riscos legais”. Esta poderá ser uma questão a ser discutida na Assembleia num futuro próximo, mas neste momento, recorda Marta Ramos, “não há nenhum partido que tenha esta questão em cima da mesa.

É neste sentido que milhares de pessoas no Canadá assinaram duas petições pela proibição das chamadas terapias de conversão. Este movimento faz parte de uma tendência global mais ampla que condena uma prática que se esconde muitas vezes por trás da pseudociência e da religião como forma de impor uma visão homofóbica sobre a identidade das pessoas.

Peter Gajdics assumiu-se gay para a sua família católica quando tinha 23 anos. Esta decidiu rejeitar sua homossexualidade o que o obrigou a sair de casa. Mas Gajdics deparou-se então com uma depressão profunda e com um sentimento alienado e distante. O seu médico encaminhou-o a um psiquiatra. Esse psiquiatra centrou-se na sexualidade de Gajdics como o problema, dizendo-lhe que o abuso que sofreu em criança criou a “falsa noção” de que ele era homossexual.

Assim, o objetivo na minha terapia seria trabalhar com o meu ‘trauma’ e, portanto, eu voltaria à minha heterossexualidade inata“, diz Gajdics. “Tudo sobre a minha terapia focou-se nisso.

Os tratamentos ficaram cada vez mais intensos. Gajdics recebeu um coquetail de medicamentos psiquiátricos – antidepressivos, um sedativo e muitos outros – necessários “para silenciar o barulho” de sua homossexualidade. O jovem canadiano passou seis anos sob os cuidados do psiquiatra, acabando por se mudar para uma casa com outros pacientes, “isolado do mundo, sem poder contactar familiares ou pessoas amigas, o que era proibido.” Por fim, ele conseguiu finalmente abandonar o tratamento, deixou de tomar a medicação e processou o médico por negligência médica.

Um dos motivos para o seu processo, que foi resolvido fora do tribunal em 2003, foi que o psiquiatra tentou tratar a homossexualidade de Gajdics como uma doença. Para Gajdics, parte do processo de recuperar sua vida depois dessa experiência era falar contra a terapia de conversão – às vezes também chamada de terapia de “reorientação sexual”, “reparadora” ou “cura gay”. Ele reconhece que o que ele passou era uma forma extrema da prática, mas o objetivo pretendido de qualquer forma de terapia de conversão é o mesmo: tentar mudar a orientação sexual ou a identidade de género de uma pessoa LGBTI. E isso, para além de errado, é absolutamente destruidor.

Terminemos recordando o comunicado feito há dias pela Ordem dos Psicólogos Portugueses:

De acordo com toda a evidência científica disponível, o muito amplo consenso entre investigadores e profissionais e a posição das principais organizações profissionais de Saúde e de Psicologia internacionais, a homossexualidade não é uma perturbação mental nem implica qualquer tipo de incapacidade, sendo uma variante da sexualidade humana, não podendo ser, desta forma, associada a qualquer forma de psicopatologia. Pelo contrário, são o preconceito, a violência e o estigma social sobre a homossexualidade que podem causar sofrimento psicológico.


Para além disso e no mesmo sentido, e de acordo com toda a evidência científica disponível e a posição das principais organizações profissionais de Psicologia internacionais, intervenções como as “terapias de conversão” ou “reparação” (terapias que procurem reduzir ou eliminar a homossexualidade) não têm qualquer fundamento, quer do ponto de vista da sua validade científica, ética, da sua eficácia e benefícios, sendo, pelo contrário, assinaláveis os potenciais riscos e prejuízos para a saúde.


De facto, os esforços para modificar ou “curar” algo que não é um problema de Saúde Mental (e que, portanto, não necessita de qualquer tipo de tratamento ou terapia) podem causar grande dano (por exemplo, sofrimento emocional, depressão, auto-imagem negativa) e contribuir para reforçar o estigma social que também prejudica os indivíduos homossexuais.

Fontes: The Star, BBC, Público e Imagem por Aarón Blanco Tejedor.

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