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Pronomes: Quando a gramática serve de desculpa para a transfobia

Parece que existe nos últimos tempos uma viragem de atenção sobre o bom uso dos pronomes relativos a pessoas não-binárias e como isso faz muita confusão a algumas pessoas.
Imagem trabalhada com base na de John Jennings.

Esta é uma viragem na atenção que funciona especialmente bem em Portugal, porque partilhamos uma língua altamente binária, masculinizada e, assim, as desculpas escudam-se atrás de uma imaculada – mas questionável – gramática e não naquilo que realmente as motiva: ignorância e transfobia.

Se na língua Inglesa, com a sua estrutura tendencialmente neutra, já existem elementos partidários em Portugal que consideram viver num “mundo aparvalhado” por serem usados os devidos pronomes “they/them” quando falamos numa pessoa não binária, como Demi Lovato, por exemplo, imagine-se a revolta que é quando se trata de uma língua latina como a nossa. Dizem, na sua ignorância, que as pessoas não-binárias “não têm o direito de impor regras de uma novilíngua inventada e que ninguém tem a obrigação de conhecer ou adoptar“. Acontece que, neste caso, Lovato não inventou uma novilíngua, nem sequer quebrou regras gramaticais. É certo que nem toda a gente é obrigada a conhecer ou a adotar as regras gramaticais, como por exemplo de que “they/them” é também usado no singular para referir-se a uma pessoa cujo género não é definido ou, lá está, não binária. Um exemplo? A person should enjoy their vacation. Outro? Each student submitted their art portfolio to the committee. Mais um? Every individual is unique. They are a combination of strengths and weaknesses.

A verdade é que existem inúmeros exemplos que são, já hoje, usados diariamente na língua Inglesa. Não quebram qualquer regra gramatical e são simultaneamente inclusivos. É isto que faz tanta confusão a algumas pessoas? Admito que possa existir estranheza inicial por ser ainda incomum o uso destes pronomes nestes contextos. Uso esse que é, reitero, gramaticamente correto, mas a língua evolui de forma orgânica e consoante as necessidades de expressão das pessoas que a usam. Este é, portanto e tal como outros, um ótimo exemplo, porque são usados termos já existentes o que facilita a sua adoção nestes contextos. Nada de realmente novo, portanto.

E, no entanto, até dentro do mundo das línguas e dos livros, Maria do Rosário Pedreira, apesar de consciente que Marieke Lucas Rijneveld, celebrada pessoa autora que se assumiu não-binária, usa os pronomes “they/them”, tratou-a pelos pronomes errados e considerou-a por isso “uma pessoa estranha, digamos assim.

Ora, os rasgados elogios à celebrada pessoa não anulam a inadequação dos termos com que a editora se referiu a Rijneveld e muito menos considerá-la uma “pessoa estranha” por ser não-binária. Não é simplesmente OK e é ofensivo à identidade de Rijneveld.

Talvez possam dizer que na língua portuguesa é muito mais difícil a expressão de uma linguagem neutra e inclusiva. Mas qual o grau de dificuldade que estamos a falar mesmo? Quebrar um hábito por comodidade justifica a não inclusão de pessoas na nossa linguagem? Este é um exercício que se aprende no nosso dia-a-dia e, longe de ser algo intransponível, diria até que é um excelente exercício para percebermos o quanto a língua nos condiciona e nos pressupõe. Calha igualmente bem ter surgido nestes dias o “Guia para uma Linguagem Promotora da Igualdade entre Mulheres e Homens na Administração Pública [.pdf]” que, não sendo perfeito, é um ótimo primeiro passo no sentido de utilizarmos uma linguagem que, ao invés de excluir, inclui.

Especificamente sobre pessoas não-binárias, e não sendo fã de @s e Xs também por uma questão de inclusão de pessoas com dificuldades de leitura/visão ou de audição (não vale o esforço de trabalharmos a inclusão de pessoas se depois vamos excluir outras), usar o termo pessoa tem algumas vantagens. Além de contrariar o masculino neutro da nossa língua, explicita que estamos a falar de uma pessoa onde o seu género é desconhecido, irrelevante ou não-binário e a partir daí é manter a coerência linguística do nosso discurso.

Alternativamente, existe também o Sistema Elu, em que os neopronomes pessoais elu, delu, nelu, aquelu, equivalentes aos pronomes femininos e masculinos existentes na língua portuguesa, são neutros em relação ao género. Este sistema pretende ser um conjunto de propostas sobre como referir-se, na língua portuguesa, às pessoas não-binárias ou cujo género é desconhecido ou indeterminado, assim como a grupos com pessoas de diferentes géneros, sem recorrer ao uso do “masculino neutro”.

Existem outros recursos para a possibilidade da neutralidade de género na língua portuguesa. Por exemplo, em palavras terminas em “-o” no masculino ou “-a” no feminino, substituir-se a desinência por “-e” (ex: lindo, linda = linde); de igual forma, em palavras terminadas em “-co” no masculino e “-ca” no feminino, substituir-se por “-que” (ex: médico, médica = médique); ou ainda ao terminarem em “-go” no masculino e “-ga” no feminino, substituir-se por “-gue” (ex: amigo, amiga = amigue), assim como a substituição dos pronomes possessivos “meu(s)” ou “minha(s)” por “minhe(s)”, ou dos artigos definidos “a(s)” e “o(s)” por “ê(s)”.

Estas são opções que requerem o esforço de mudança de hábitos na nossa linguagem, é certo. Mas a verdade é que, ao serem utilizadas e implementadas será sempre uma questão de ganharem tração na nossa forma de expressão. Veja-se o caso do Novo Acordo Ortográfico, ainda há resistentes, mas ao longo do tempo as pessoas começaram a usá-lo cada vez mais. Até lá, existem já hoje – e como foi explicado – formas de tornar a língua mais inclusiva, abrangente e expressar quem realmente somos. É pedir assim tanto?

Para abrir a discussão sobre identidades não-binárias, recomendo igualmente o episódio do Podcast Dar Voz A esQrever com Dani Bento:

O Podcast Dar Voz A esQrever 🎙🏳️‍🌈 está disponível nas seguintes plataformas:
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