
Vinte anos após o assassinato de Gisberta, a Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto regressa às ruas este sábado, 27 de junho, com um apelo à memória, à resistência e à construção de um futuro mais justo. A concentração está marcada para as 15h00 na Praça da República com o mote: “Por Gisberta, por um Abril que ainda não aconteceu”.
A 21.ª edição da marcha acontece num momento em que os direitos das pessoas LGBTI+ enfrentam novos desafios em Portugal e em várias partes do mundo. A organização sublinha que tem assistido a “retrocessos dos nossos direitos” e a uma crescente instrumentalização das identidades LGBTI+, apontando também para ataques dirigidos a pessoas trans, migrantes e trabalhadoras.
Ao escolher Gisberta como símbolo central da mobilização, a marcha recupera a memória de uma mulher trans brasileira assassinada no Porto em fevereiro de 2006, um crime que marcou profundamente a comunidade LGBTI+ portuguesa e brasileira e que continua a ser recordado como um dos episódios mais violentos de transfobia na história recente do país.
“São 20 anos desde a sua morte, 20 anos desde que saímos todes juntes pela primeira vez à rua como marcha a reivindicar condições para que não haja mais Gisbertas que ficam conhecidas na memória coletiva só após uma tragédia”, recorda a organização.
A referência a Gisberta surge como memória de que os avanços legais das últimas décadas não eliminou todas as formas de exclusão, discriminação e violência.
Orgulho num contexto de retrocessos
A convocatória da marcha estabelece também uma ligação entre as lutas LGBTI+ e outras reivindicações sociais. A organização denuncia ataques aos direitos sociais, à habitação, aos salários e à saúde física e mental, defendendo uma resposta baseada na solidariedade e na cooperação.
“Usaremos o direito ao amor e à identidade como mote, o orgulho como cola de união”, lê-se no texto divulgado, que termina com um apelo à participação de famílias, pessoas amigas, grupos e coletivos.
A marcha realiza-se igualmente após vários meses de debate dentro da própria comunidade sobre a melhor forma de afirmar a luta LGBTI+ no espaço público. Recorde-se que, em abril, a Comissão Organizadora anunciou que a edição deste ano teria lugar a 25 de Abril, uma decisão que gerou controvérsia e levou diversas entidades a manifestar reservas. Dias depois do anúncio, a organização recuou e confirmou que se juntaria às celebrações da Revolução dos Cravos, mantendo posteriormente a realização da marcha durante o período tradicional do Orgulho.
Agora, com o mês de junho a chegar ao fim, o Porto prepara-se para voltar a encher as ruas de bandeiras, reivindicações e memórias. Vinte anos depois da morte de Gisberta, a mensagem mantém-se atual: a liberdade só é plena quando chega a todas as pessoas.
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