
Enquanto a Alemanha procura o suspeito do ataque contra participantes no Christopher Street Day, milhares de mensagens LGBTIfóbicas revelam como o ódio não termina no local do crime.
O Christopher Street Day (CSD) de Berlim, uma das maiores celebrações LGBTI+ da Europa, terminou este sábado em tragédia. Um ataque com uma carrinha contra participantes na marcha provocou a morte de uma pessoa e fez pelo menos 17 feridos, alguns em estado grave. Horas depois, as autoridades alemãs lançaram uma operação para localizar o principal suspeito, um jovem de 21 anos alegadamente conhecido das forças de segurança por ligações a círculos islamistas.
O ataque aconteceu ao início da noite, na zona do Tiergarten, pouco depois de centenas de milhares de pessoas terem participado na marcha do Orgulho. Segundo a polícia, uma carrinha branca acelerou contra a multidão antes de embater numa árvore. Testemunhas relataram ainda que, após o atropelamento, várias pessoas foram esfaqueadas quando o ou os ocupantes abandonaram o veículo.
A polícia de Berlim identificou o principal suspeito como Abdul B., um cidadão alemão descendente de libaneses. As autoridades divulgaram um mandado de captura público e alertaram que poderá estar armado e ser perigoso. Apesar disso, sublinham que a investigação continua em curso e que ainda não foi possível estabelecer com certeza a motivação do ataque nem reconstruir toda a sequência dos acontecimentos.
As celebrações foram imediatamente interrompidas e o concerto previsto junto ao Portão de Brandemburgo cancelado. A polícia isolou a zona e pediu à população que abandonasse o local.
Líderes alemães condenam ataque
O chanceler alemão, Friedrich Merz, classificou o ataque como um “ato abominável” e afirmou que representa “um ataque à nossa sociedade“. Também o presidente da Câmara de Berlim, Kai Wegner, descreveu o sucedido como “um ataque à sociedade livre e cosmopolita” da capital alemã.
“A manifestação por uma Berlim pacífica e tolerante foi atacada da forma mais brutal. Berlim é a cidade da liberdade — e a nossa liberdade foi atacada“, escreveu nas redes sociais, expressando solidariedade com as vítimas e agradecendo o trabalho das equipas de emergência.
Poucas horas antes do ataque, a polícia tinha já intervindo numa ação de protesto organizada por grupos neonazis contra o Christopher Street Day, reforçando o clima de tensão que rodeava o evento.
Também António Costa, como Presidente do Conselho Europeu, condenou o ataque:
“Os meus pensamentos estão com as vítimas do atentado à parada do Christopher Street Day, em Berlim. Trata-se de um ataque aos valores que caracterizam a nossa União. A União Europeia condena veementemente qualquer forma de ódio, extremismo e violência.”
Quando o ódio continua depois do ataque
A violência, porém, não ficou limitada ao local da tragédia. Nas horas que se seguiram, várias publicações noticiosas sobre o ataque foram inundadas por comentários LGBTIfóbicos, muitos deles ridicularizando as vítimas ou desvalorizando o sucedido. Entre as frases mais repetidas encontrava-se uma pergunta aparentemente banal: “A carrinha está bem?“.
O comentário procura inverter os papéis entre vítimas e alvo de escárnio. Em vez de expressar solidariedade perante uma pessoa morta e dezenas de pessoas feridas, transforma o ataque numa oportunidade para ridicularizar uma comunidade já vulnerável.
Mais do que uma provocação isolada, este tipo de reação evidencia um problema mais profundo: a normalização da desumanização das pessoas LGBTI+. Quando a primeira resposta a um ataque mortal é uma piada sobre o veículo utilizado, deixa de existir o mínimo denominador comum de empatia que deveria unir qualquer sociedade democrática.
Independentemente das conclusões da investigação criminal ou das motivações do suspeito, há um facto que não deveria ser controverso: pessoas foram atacadas enquanto participavam numa manifestação pacífica. Merecem solidariedade, não sarcasmo.
A rapidez com que o discurso de ódio ocupa o espaço público após acontecimentos desta natureza demonstra também como a violência física e a violência simbólica frequentemente caminham lado a lado. A primeira provoca vítimas imediatas; a segunda contribui para um ambiente em que a dor das pessoas LGBTI+ é relativizada, banalizada ou mesmo celebrada.
Num momento em que Berlim e a Alemanha procuram responder ao ataque, vale a pena recordar que a defesa de uma sociedade livre também passa pela capacidade de reconhecer a humanidade das vítimas, antes de qualquer divergência política ou ideológica.
Porque quando a empatia desaparece, perde-se muito mais do que uma discussão nas redes sociais. Perde-se uma parte essencial daquilo que sustenta a sociedade democrática.
A nossa solidariedade para com as vítimas, as suas famílias e a comunidade berlinense.
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