Caster Semenya, quão mulher precisa ser?

Caster Semenya é mulher, negra, lésbica e tem dominado a prova dos 800m planos na última década. Esta semana o Supremo Tribunal Federal da Suíça reverteu a sua anterior decisão e impediu-a de competir nos Campeonatos Mundiais de Atletismo em setembro onde poderia defender o título que conquistou três vezes. O problema? Níveis de testosterona considerados acima da média para uma mulher. Quão mediana precisa Semenya então ser para continuar uma atleta excecional?

Com esta decisão, a sul-africana fica assim à mercê das regras da Federação Internacional de Atletismo que a obriga a tomar supressores de testosterona para poder competir, supressores estes conhecidos por efeitos secundários adversos à saúde humana. Semenya recusou-se ser submetida a esse tratamento que é considerado pela própria Associação Mundial de Saúde “totalmente anti-ético“. As Nações Unidas também já se posicionaram ao lado da dupla campeã olímpica.

Não se trata de uma questão recente e para entendermos o seu início precisamos recuar não uma, mas várias décadas. Foi em 1964 que as primeiras dúvidas quanto à identidade de várias atletas mulheres surgiram, nomeadamente com a polaca Ewa Klobukowska, bronze nos 100m dos Jogos Olímpicos. Klobukowska foi submetida a vários testes médicos que não passavam de desfiles de nudez perante pessoal médico que observava os seus genitais. A atleta passou nestes primeiros testes.

Ewa Klobukowska

Três anos depois os testes começaram a verificar cromossomas e a atleta revelou-se intersexo – uma condição em que indivíduos nascem com uma variação às suas características sexuais e que pode passar despercebida à própria pessoa. Klobukowska foi assim banida das competições e os seus recordes anulados.

Foi em 2011 que surgiram os primeiros testes aos níveis de testosterona no atletismo mundial. Dois anos passados, a indiana Dutee Chand falhou o teste e foi banida das competições. Mas a campeã asiática, que assumiu estar numa relação com outra mulher este ano, tornando-se assim na primeira atleta indiana a fazê-lo, lutou pelo seu direito em competir e, através do Tribunal Arbitral do Desporto, conseguiu reverter a decisão, alegando a falta de provas que níveis altos de testosterona são um claro benefício para a performance desportiva.

Acontece que os níveis de testosterona estão longe de ser os únicos factores para o sucesso desportivo. A alimentação, o descanso, a capacidade de transporte e metabolização do Oxigénio, a fisionomia (como o tamanho do coração, ou dos membros), o equipamento utilizado ou o plano de treinos são factores que influenciam grandemente a performance atlética. É importante que as entidades encontrem formas justas para a prática de um desporto competitivo, mas onde está a linha vermelha? No nível de testosterona? Na altura de uma atleta? Por exemplo, as atletas que dominam o salto em altura medem todas acima do 1,80m, muito acima da média numa mulher. Devem elas ser banidas acima de determinada altura? A fisionomia invulgar de Michael Phelps (torso longo, pernas curtas, mãos e pés compridos) pode também ser questionada perante o que é considerado normal? Quem decide que a partir de certo ponto não é justa a competição? E que outros factores poderão influenciar estas decisões?

Repare-se, Semenya é provavelmente o nome mais conhecido destes avanços e recuos no que toca à competição feminina de alta performance, mas não é a única mulher a sofrer este tipo de pressão. As suas concorrentes e colegas de pódio nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, Francine Niyonsaba e Margaret Wambui, também foram afectadas pelas decisões da Federação Internacional de Atletismo e poderão ser impedidas de competir caso não tomem medicação que lhes baixe os níveis naturais de testosterona. Existe igualmente um detalhe que importa não descartar: os testes aos níveis de testosterona são propostos apenas quando há suspeitas de atletas que precisam ser testadas, ou seja, há o risco de este policiamento focar-se na aparência das atletas. E aqui pergunto, inserem-se as quatro campeãs num modelo daquilo que é esperado de uma mulher em termos de fisionomia, de força e até de beleza? Até que ponto não estão elas a ser penalizadas pelo seu aspecto pouco convencional aos olhos de um júri ocidentalizado?

As decisões das federações e tribunais estão longe de serem o único problema destas mulheres. Para além do Secretário Geral da IAFF ter questionado a identidade de Semenya, também os meios de comunicação têm uma responsabilidade no tratamento que fazem a este tipo de notícias. “É a campeã mundial dos 800m uma mulher?” simplesmente não é uma manchete aceitável. Que fique claro, esta não é uma questão de doping. Semenya e as restantes atletas não acusaram qualquer substância dopante. Esta também não é uma questão transgénero. Semenya é uma mulher cisgénero. E o aspeto, a forma, a cor, a força que ela e outras mulheres possam ter não fazem delas menos mulheres do que inquestionavelmente já são.

Todas estas adversidades, quanto muito, tornam-nas duplas campeãs, dentro e fora das pistas de atletismo, porque estão a tentar afirmar o seu valor, o seu esforço, o seu talento e até a sua identidade num sistema imperfeito que ainda não sabe lidar com elas. O caminho parece claro, são as suas características únicas que também as tornam excecionais e um motivo de inspiração para tantas outras atletas. Que não seja pois esta uma falsa-partida para os Mundiais de Atletismo.

Fonte: Vox e Imagem.


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