Nenhum direito vive sozinho: porque a luta LGBTQIA+ precisa de ser interseccional

Nenhum direito vive sozinho: porque a luta LGBTQIA+ precisa de ser interseccional

Os direitos LGBTQIA+ nunca foram conquistados por uma comunidade homogénea, nem chegaram ao mesmo tempo para todas as pessoas. Hoje estamos perante novos ataques às pessoas trans, a ascensão de movimentos conservadores e radicais, a desinformação, a pressão de redes sociais regidas por algoritmos pouco transparentes ou as dificuldades crescentes enfrentadas por quem continua a trabalhar no terreno.

Neste contexto, já de si hostil, quando falamos em separar letras, identidades e lutas, alimentamos quem tem como objetivo central enfraquecer o movimento.

Quis, por isso, fazer o contrário daquilo que as redes sociais tantas vezes nos pedem: abrandar, olhar para trás e juntar os muitos pontos que compõem este movimento.

Quis, por isso, sair, por alguns minutos, da velocidade do feed, dos comentários, dos bots e dos julgamentos instantâneos.

Quis, por isso, olhar para a História, para aquilo que sabemos através da investigação e para a experiência de quem constrói comunidade todos os dias.

Porque talvez seja precisamente quando nos tentam convencer de que estamos irremediavelmente divididas que mais importa perceber o que nos liga e porque nenhum direito vive — nem sobrevive — sozinho.

A liberdade de uma pessoa gay não existe separada da liberdade de uma pessoa trans. A igualdade de uma mulher lésbica não existe separada da igualdade das restantes mulheres. E uma pessoa LGBTQIA+ racializada, migrante, em situação de pobreza ou com deficiência não deixa essas dimensões da sua vida à porta quando entra num espaço queer.

É precisamente aqui que começa a interseccionalidade.

Começa pelo reconhecimento de que as pessoas vivem várias dimensões da desigualdade simultaneamente e que os sistemas que as produzem se cruzam.

E também como uma escolha política: quando atacam algumas pessoas da nossa comunidade, a resposta não pode depender de esse ataque também nos atinge pessoalmente.

Esta questão torna-se particularmente urgente quando ganham espaço movimentos que pretendem separar lésbicas, gays e bissexuais das pessoas trans e não-binárias.

Ou quando homens gay cisgénero, como eu, depois de décadas de avanços jurídicos e sociais, dizem já não se sentir representados pelo movimento LGBTQIA+ porque este dedica atenção a outras identidades, desigualdades e direitos ainda por conquistar.

Não é, definitivamente, o meu caso.

Se uma organização continua a defender liberdade, igualdade e dignidade humana, mas dedica mais atenção a quem enfrenta agora maiores obstáculos, quando deixou de nos representar? E, sobretudo: quando foi que os direitos humanos passaram a dizer-nos respeito apenas quando são os nossos?

A interseccionalidade não começou com a palavra

Kimberlé Crenshaw por Mohamed Badarne (2018).
Kimberlé Crenshaw por Mohamed Badarne (2018).

O termo “interseccionalidade” foi introduzido pela jurista estadunidense Kimberlé Crenshaw em 1989. Crenshaw criticava aquilo a que chamou uma análise de “eixo único”. Tratar racismo e sexismo como categorias mutuamente exclusivas tornava invisíveis experiências específicas das mulheres negras.

Mas a prática política era muito anterior. Em 1977, o Combahee River Collective, um coletivo feminista negro e lésbico, já descrevia opressões raciais, sexuais, heterossexuais e de classe como sistemas interligados.

As suas integrantes tinham encontrado um problema que permanece atual: movimentos antirracistas podiam reproduzir sexismo e homofobia; movimentos feministas podiam reproduzir racismo e desigualdade de classe.

A conclusão não foi o isolamento. Pelo contrário, o coletivo trabalhava em coligação com outras organizações progressistas e defendia uma análise conjunta das diferentes estruturas de opressão.

Esta origem interessa especialmente hoje. A chamada “política de identidade”, frequentemente apresentada por quem a critica como uma fragmentação infinita, nasceu precisamente da constatação de que ninguém vive apenas uma identidade. Exigir que alguém escolha entre ser mulher, negra, lésbica ou migrante produz um apagamento da sua identidade e circunstância completas.

A interseccionalidade não é, assim, apenas uma ferramenta para estudar desigualdades. Pode ser também uma estratégia política. Permite, por exemplo, perguntar quem participa num movimento, quem fica nas margens, que reivindicações recebem prioridade e que alianças podem ser construídas.

A construção de coligações ocupa, precisamente, um lugar central nessa estratégia e nesta História.

A história LGBTQIA+ nunca pertenceu a uma única letra

Também convém desconstruir outra ideia: a de que pessoas trans e de género diverso apareceram posteriormente num movimento originalmente constituído apenas por gays e lésbicas. A sigla mudou ao longo das décadas, mas as pessoas não apareceram quando acrescentámos uma letra.

Em Stonewall, em junho de 1969, resistiram à violência policial pessoas com diferentes orientações sexuais, identidades e expressões de género.

A documentação histórica preservada pela Biblioteca do Congresso dos EUA mostra a importância de drag queens, pessoas trans e pessoas cuja expressão de género desafiava as normas daquela época naquela resistência.

Isto não significa repetir mitos sobre quem “atirou o primeiro tijolo”. Nem transformar Stonewall na história de uma única pessoa. Mais do que isso, significa reconhecer que a libertação queer nasceu de uma comunidade heterogénea. Nela estavam também pessoas em situação de pobreza, racializadas e fortemente policiadas.

E essa história contém uma advertência.

Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson numa manifestação pelos direitos gay em Nova Iorque (Abril de1973)

Poucos anos depois, Sylvia Rivera confrontava publicamente um movimento gay que começava a marginalizar algumas das pessoas que tinham participado na sua construção.

Em 1973, Rivera teve de conquistar à força o direito a falar numa manifestação do Orgulho em Nova Iorque. Foi vaiada enquanto exigia atenção para pessoas trans e outras pessoas queer particularmente marginalizadas.

Não há, portanto, uma história LGBTQIA+ de unidade perfeita. Há, sim, conflitos, erros, exclusões e pessoas que foram deixadas para trás. Mas é precisamente por isso que importa conhecer a História.

Porque a lógica de avançar com os direitos politicamente mais fáceis e deixar determinadas pessoas para “depois” também não é nova. Aliás, a História permite-nos perguntar: quem fica sempre para depois?

Em Portugal, os direitos também não chegaram todos ao mesmo tempo

Não precisamos sequer de atravessar o Atlântico para perceber isso. A história portuguesa dos direitos LGBTQIA+ mostra-nos como a igualdade foi construída por etapas.

Em 1982, oito anos após o 25 de Abril, um novo Código Penal eliminou a criminalização específica das relações homossexuais entre pessoas adultas, entrando em vigor em janeiro de 1983. Não sendo propriamente recente, já eu tinha nascido nesta altura.

Em 2001, as uniões de facto passaram a abranger legalmente duas pessoas independentemente do sexo.

Em 2004, a orientação sexual passou a estar expressamente inscrita no artigo 13.º da Constituição da República Portuguesa entre as categorias protegidas pelo princípio da igualdade.

Em 2010 chegou o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo.

Mas nem essa conquista significou igualdade familiar. A própria lei estabelecia explicitamente que a abertura do casamento não permitia a adoção por casais do mesmo sexo. Quem pretendia apenas casar podia ter concluído que a luta estava feita. Não estava.

Em 2011, Portugal criou um procedimento administrativo para alterar sexo e nome no registo civil. Mas ainda exigia um diagnóstico entretanto clinicamente ultrapassado de “perturbação de identidade de género”.

Em 2016, seis anos depois do casamento, foi finalmente eliminada a discriminação no acesso à adoção por casais do mesmo sexo. Nesse mesmo ano, o acesso à procriação medicamente assistida foi alargado a todas as mulheres, independentemente do estado civil ou orientação sexual.

Só em 2018 foi consagrado o direito à autodeterminação da identidade e expressão de género e à proteção das características sexuais, substituindo o modelo de 2011.

Esta cronologia não é uma fila perfeita. Houve outras conquistas, derrotas, avanços paralelos e direitos que continuam por cumprir. Mas mostra algo essencial: quem conquistava um direito podia sempre ter decidido que a luta tinha ali acabado.

Mas se todas as pessoas tivessem seguido essa lógica, muitos dos direitos que hoje tomamos como adquiridos simplesmente não existiriam. É também por isso que me preocupa ouvir que o movimento LGBTQIA+ “já não representa” certas pessoas porque continua a lutar.

Há conquistas que nos deixam suficientemente confortáveis

Nas últimas décadas, parte da população LGBTQIA+ conquistou uma liberdade quotidiana que anteriormente parecia improvável ou mesmo impossível.

Casamento. Famílias reconhecidas. Proteções laborais. Maior representação cultural. Visibilidade política. Estes são exemplos de conquistas extraordinárias que outrora via como inalcançáveis.

Hoje, devem continuar a ser defendidas, porque existe um risco conhecido nos movimentos sociais: algumas das pessoas que beneficiam de uma transformação podem começar a considerar que a luta terminou quando a sua própria vida se tornou suficientemente confortável.

A investigação sobre interseccionalidade e movimentos sociais chama precisamente a atenção para os diferentes graus de privilégio existentes dentro das próprias minorias. Essas diferenças influenciam quem participa, quem detém poder, quais reivindicações recebem atenção e quais acabam negligenciadas.

Uma pessoa gay branca, cisgénero, economicamente confortável e com cidadania portuguesa pode hoje viver numa sociedade radicalmente diferente daquela existente há poucas décadas.

Uma pessoa LGBTQIA+ negra, cigana, migrante, refugiada, pobre, com deficiência ou trans pode experienciar essa mesma sociedade de forma bastante diferente.

As duas experiências são verdadeiras, mas o erro começa quando transformamos a primeira na medida de todas as restantes. Interseccionalidade também significa perceber isto: ter conseguido ultrapassar uma barreira não significa que todas as pessoas tenham chegado ao mesmo lugar.

Separar o “LGB” do “T” não é neutro

Marcha do Orgulho do Porto (2023).

A orientação sexual e a identidade de género são conceitos diferentes, mas essa distinção não torna os respetivos direitos e lutas incompatíveis. Muito pelo contrário.

Em Portugal, a diversidade do próprio movimento demonstra isso. Existem entidades com intervenção mais abrangente, como a ILGA Portugal ou a Opus Diversidades.

Mas, além destas, também existe o Clube Safo, historicamente dedicado à organização, visibilidade e direitos das mulheres lésbicas. Ou o GRIT — Grupo de Reflexão e Intervenção Trans, dedicado aos direitos das pessoas trans, não-binárias e de género diverso. Ou grupos específicos de apoio e partilha para pessoas trans e não-binárias, mulheres lésbicas ou bissexuais e homens gays ou bissexuais. Ou a AMPLOS que concentra uma parte importante do seu trabalho nas mães, pais e familiares de pessoas LGBTQIA+. Ou ainda o Queer Tropical que nasceu sobretudo para apoiar a comunidade LGBTQI+ brasileira em Portugal e assume explicitamente uma intervenção feminista e antirracista.

Estes são exemplos de respostas diferentes porque existem necessidades diferentes. Criar espaços específicos pode ser indispensável para combater desigualdades que desaparecem dentro de grupos demasiado abrangentes.

Mas especificidade não é separatismo político. Os problemas surgem quando a defesa de uma parte da comunidade passa a ser construída através da retirada de direitos, legitimidade ou reconhecimento a outra. Quando falamos de minorias, esta é uma questão que afeta com maior proporção as pessoas que a constituem.

Quem ataca direitos também sabe construir alianças

Há aqui um paradoxo que importa realçar. Enquanto algumas pessoas dentro da comunidade discutem a legitimidade ou se devemos separar as nossas lutas, os movimentos que pretendem restringir direitos aprenderam há muito a trabalhar em conjunto.

A investigação recente sobre extrema-direita e movimentos anti-género mostra a crescente articulação entre antifeminismo, oposição aos direitos LGBTQIA+, autoritarismo, racismo, xenofobia e outras agendas conservadoras.

Em Portugal, discursos sobre a “proteção das mulheres” foram instrumentalizados para legitimar agendas homofóbicas, transfóbicas, racistas, anti-imigração e xenófobas.

A estratégia funciona porque os alvos podem mudar. Num momento são pessoas migrantes. Noutro, mulheres feministas. Noutro, pessoas trans. Depois, educação sexual. Famílias LGBTQIA+. Pessoas racializadas. A coligação que procura restringir direitos percebe uma coisa que o movimento pelos direitos humanos não pode esquecer: estas frentes estão relacionadas.

Portugal oferece-nos, neste momento, um exemplo muito concreto. Em agosto de 2026, o Alto-Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos apelou à retirada ou revisão dos projetos do PSD, Chega e CDS-PP que alteram o regime da identidade de género. A ONU alertou para o risco de as propostas colocarem em causa obrigações internacionais de Portugal em matéria de direitos humanos.

Podemos discutir partidos, estratégias, soluções legislativas ou prioridades, mas há uma conclusão difícil de ignorar: direitos anteriormente conquistados podem voltar a ser discutidos, limitados ou retirados.

Nenhuma geração recebe direitos humanos com garantia vitalícia e o mecanismo usado hoje contra um grupo pode amanhã ser mobilizado contra outro.

Esta não deverá ser a razão para a nossa solidariedade. Os direitos das outras pessoas importam por si mesmos, mas convém não esquecer que não vivemos livres das marés políticas que ajudam a retirar direitos a quem está ao nosso lado.

Um movimento que rema contra a maré

Há ainda um contexto que não podemos ignorar quando discutimos o estado atual do movimento LGBTQIA+. Estamos a exigir mais das suas organizações precisamente quando muitas trabalham num ambiente político, mediático e financeiro mais difícil.

E este problema ultrapassa o movimento LGBTQIA+. Em 2026, a Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA) voltou a alertar para a crescente pressão sobre organizações da sociedade civil que trabalham em direitos fundamentais.

Entre as organizações consultadas, 67% relataram ameaças ou ataques verbais online. 60% referiram cobertura mediática negativa ou campanhas de difamação. 39% tinham enfrentado cortes de financiamento considerados politicamente motivados. E 44% tinham sofrido uma redução inesperada, corte ou congelamento de financiamento nos 12 meses anteriores.

A ILGA-Europe documenta, simultaneamente, um agravamento do espaço cívico para organizações e pessoas LGBTI em diferentes países europeus, incluindo campanhas de desinformação, ataques a organizações e obstáculos ao financiamento.

Ao mesmo tempo, essas organizações têm de responder a necessidades concretas: Apoio psicológico. Apoio jurídico. Violência. Discriminação. Migração. Saúde. Educação. Formação. Incidência política. Comunicação. Informação. Criação de comunidade.

E espera-se ainda presença imediata em todas as redes, resposta a todas as polémicas, representação de todas as realidades e capacidade para chegar a todo o território.

Tudo isto acontece com equipas frequentemente pequenas, financiamento dependente de projetos temporários e uma enorme quantidade de trabalho voluntário.

Talvez devamos pensar também nisto quando perguntamos porque é que uma associação ainda não fez determinada coisa. Essa pergunta pode ser perfeitamente legítima, mas outra também é: com que pessoas, tempo e recursos esperamos que a faça?

Relembro que falamos hoje num ano em que não se realizou o Arraial Lisboa Pride por falta de condições entre as entidades que o promovem, um evento que tinha vindo a aumentar o nível de parcerias e realização com diversas comunidades. Este é o ano em que também o Festival Política se viu obrigado a mudar de casa na sua décima edição. Também as diversas marchas pelo país, cujas comissões reúnem múltiplas entidades de diversos setores socio-culturais têm vindo a encontrar obstáculos crescentes à sua realização. Esta não é, aliás, uma realidade exclusiva portuguesa, estando a propagar-se um pouco por toda a Europa.

É este o contexto adverso em que se movimentam muitas destas associações e movimentos pelos direitos humanos em Portugal. Parte dos seus recursos é também consumida a responder a polémicas fabricadas, desinformação e ameaças a direitos anteriormente consolidados. Esse desgaste não é acidental nas estratégias políticas que procuram fragilizar organizações, instituições e avanços conquistados, a muito custo, nas últimas décadas.

Um slogan precisa de apenas uns segundos. Desmontá-lo exige-nos muito mais tempo

A pressão sobre o movimento não acontece apenas através de políticas e recuos concretos. Também a própria arquitetura do cada vez mais hegemónico espaço digital faz parte deste contexto, porque as redes sociais não se limitam a mostrar aquilo que existe. Selecionam, ordenam e recomendam. Ao fazê-lo, podem amplificar determinados conteúdos e criar perceções do debate público que não correspondem necessariamente à sua verdadeira dimensão na sociedade.

A investigação mostra que feeds baseados no envolvimento podem amplificar conteúdos políticos marcados pelo conflito entre grupos, moralização, emoção e toxicidade. Podem também distorcer a nossa perceção da hostilidade existente entre diferentes grupos.

Durante as campanhas para as eleições europeias de 2024, por exemplo, foram encontradas vantagens significativas de envolvimento para partidos populistas radicais em várias plataformas, especialmente quando recorriam a comunicação emocional e anti-elitista.

Isso não demonstra que os algoritmos “criem” populismo. Mostra que determinadas formas de comunicação política conseguem prosperar particularmente bem nestes ambientes.

Sabemos também que os efeitos variam entre plataformas.

No X, a utilização do feed algorítmico em vez do cronológico alterou a exposição a conteúdos políticos e produziu mudanças mensuráveis em algumas das suas opiniões.

Mensagem simples. Inimigo facilmente identificável. Medo. Indignação. Conflito. Minoria como ameaça.

Tudo isto se adapta extraordinariamente bem a sistemas que recompensam atenção e reação. Já a realidade complexa dos direitos humanos é bastante menos conveniente para esse formato.

Explicar porque uma lei sobre identidade de género é necessária exige contexto. Explicar interseccionalidade exige nuance. Explicar porque duas pessoas podem viver experiências diferentes e ambas merecerem proteção exige também disponibilidade para ouvir.

Um slogan precisa de uns meros segundos para chamar a atenção, mas desmontá-lo consome-nos tempo. É uma batalha comunicacional profundamente assimétrica. A isso juntam-se contas automatizadas e operações coordenadas destinadas a amplificar artificialmente determinadas narrativas.

A investigação sobre social bots mostra que estes conseguem produzir grandes volumes de mensagens, interferir no debate público e influenciar o comportamento das pessoas. Isto também deve deixar-nos prudentes quando olhamos para uma caixa de comentários.

Vinte, cem ou mil mensagens de ódio não equivalem necessariamente a vinte, cem ou mil pessoas diferentes. Muito menos constituem uma sondagem à sociedade.

Importa percebermos que as redes sociais fazem parte do mundo real, sim, mas não são uma fotografia fiel dele. Não podemos deixar que um feed nos convença de que é o país inteiro.

Note-se: o ódio online é real. Bem real. A desinformação e o discurso de ódio têm consequências sobre pessoas reais, que leem, interiorizam, repetem ou sofrem aquelas mensagens.

A própria FRA recomenda que os Estados combatam o discurso de ódio e a desinformação online contra pessoas LGBTQIA+.

No seu grande inquérito europeu, 63% das pessoas participantes disseram encontrar frequentemente ou sempre declarações de ódio contra a comunidade LGBTQIA+ online. Mais de um terço tinha visto apelos à violência.

Comunidade rima com rede de apoio

Marcha do Orgulho de Coimbra (2025).

Se este é o contexto político, institucional e comunicacional em que o movimento trabalha, importa também olhar para a forma como tenta responder-lhe na prática. Porque construir comunidade não significa que todas as instituições tenham de estar fisicamente presentes em todos os concelhos, distritos ou regiões do país.

Qualquer movimento que se queira nacional tem de pensar no interior, nos Açores, na Madeira e nas pessoas que vivem fora dos grandes centros urbanos. Mas há uma diferença importante entre não estar fisicamente num território e não trabalhar com esse território.

Por vezes vejo a ausência de uma sede, delegação ou equipa permanente numa determinada região apresentada automaticamente como prova de falta de interesse ou capacidade.

A crítica à centralização é necessária. Aliás, acompanho-a. As organizações devem perguntar continuamente quem conseguem alcançar e quem continua sem resposta. É um equilíbrio de difícil malabarismo para as equipas, mas exigir que cada associação reproduza a mesma estrutura em todo o país também ignora a realidade do movimento associativo.

Nenhuma organização consegue fazer tudo, para todas as pessoas, em todos os lugares. É precisamente por isso que existe trabalho em rede.

Uma associação pode receber um pedido de ajuda de uma região onde não tem estrutura própria e encaminhá-lo para outra organização que tenha.

Pode encontrar acompanhamento psicológico, jurídico ou social através dessa rede de apoio. Pode partilhar conhecimento, contactos ou recursos. Pode apoiar uma iniciativa sem tentar substituí-la. E pode fazer a pergunta talvez mais importante: de que precisam?

Há exemplos concretos desta lógica em Portugal.

A AMPLOS trabalha em rede com outras associações e encaminha, quando necessário, cada pessoa para a entidade mais adequada à situação. Entre as organizações que identifica estão Casa Qui, ILGA Portugal, Opus Diversidades, Plano i e rede ex aequo.

A própria rede nacional de recursos especializados para pessoas LGBTQIA+ vítimas de violência junta respostas asseguradas por organizações diferentes.

Isto também é presença. Talvez menos visível, mas presença concreta e no terreno.

Talvez esta rede seja uma forma até mais saudável de descentralização do que imaginar uma grande organização nacional replicada em miniatura por todo o país.

Fortalecer associações e coletivos locais significa reconhecer que têm conhecimento próprio. Conhecem instituições, relações, problemas específicos, oportunidades e riscos que quem está a centenas de quilómetros dificilmente compreenderá da mesma maneira.

Ao mesmo tempo, uma organização nacional pode ter recursos jurídicos, técnicos, políticos ou comunicacionais que uma pequena estrutura local não possui. Uma pode chegar onde a outra não chega.

Pessoalmente, para quem cresceu numa região com zero presença associativa LGBTQIA+, ver esta rede de apoio crescer um pouco por todo o país é um verdadeiro orgulho.

É, por isso, preciso identificar vazios e criar novas respostas quando são necessárias, mas também devemos conhecer a realidade antes de declarar que ela não existe.

A Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa é organizada por dezenas de associações e coletivos.
Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa, organizada por dezenas de associações e coletivos.

Há demasiado trabalho associativo que acontece fora do palco. Referenciações. Telefonemas entre equipas. Partilha de contactos. Fóruns políticos. Assembleias. Cedência de espaços. Apoio técnico. Formação. Organização conjunta de atividades. Respostas individuais que, por questões de privacidade e segurança, nunca serão publicadas. Grande parte destas histórias não chegará ao Instagram, é certo, mas isso não significa que não tenham acontecido.

A força de um movimento mede-se também pela capacidade de ligar os pontos e isso é a interseccionalidade posta em prática. Mas nenhuma rede existe sozinha. Para haver associações, coletivos, espaços e respostas, é preciso haver pessoas dispostas a construí-los e a mantê-los.

Comunidade também é um verbo

Há, finalmente, uma dimensão que, para mim, não pode ficar apenas no discurso. É relativamente fácil publicar um post, como este, ou um vídeo. Também é relativamente fácil apontar tudo aquilo que está errado e permanecer fora da construção das alternativas.

Mais difícil é criar e manter as estruturas que permitem que uma comunidade sobreviva quando os direitos são atacados.

Associações, coletivos e movimentos precisam de pessoas. Precisam de quem participe numa atividade. De quem compareça numa assembleia. Faça voluntariado. Se associe. Doe. Organize. Reúna. Conteste. Escreva. Investigue. Ou simplesmente esteja presente.

Precisam também de crítica. As organizações LGBTQIA+ não estão, obviamente, acima dela. Devemos, sim, questionar quem representam, quem ocupa os seus espaços de decisão, que prioridades escolhem, quem permanece invisível e que erros cometem.

A crítica não deixa de ser legítima porque vem de fora, mas há uma diferença entre criticar para transformar uma comunidade e usar a crítica como justificação para deixar de nos preocuparmos com ela.

E há uma força particular em quem, além de identificar um problema, decide arregaçar as mangas e oferecer tempo, visão, energia ou talento para construir uma resposta diferente.

Tudo isto se torna ainda mais importante quando as próprias estruturas comunitárias estão sob pressão. No levantamento da FRA, quatro em cada cinco organizações que enfrentaram ataques ou outras pressões relataram efeitos psicológicos nas pessoas que nelas trabalham ou fazem voluntariado, incluindo burnout, ansiedade, depressão e sentimentos de vulnerabilidade. Mais de metade indicou problemas financeiros ou redução de atividades em resultado das pressões externas.

Sim, há pessoas a defender direitos enquanto são insultadas por os defender. Sim, há organizações acusadas de terem demasiado poder que passam meses sem saber se conseguirão financiar o trabalho do ano seguinte. Sim, há equipas a responder a ataques políticos enquanto continuam a atender quem precisa de ajuda na segunda-feira de manhã. E, sim, há voluntariado a preencher diariamente os espaços que os recursos existentes não conseguem cobrir.

Proteger o movimento LGBTQIA+ significa, portanto, pensar para além dos direitos inscritos na lei. Significa proteger também a infraestrutura que os torna reais:

As associações. Os coletivos. Os espaços comunitários. As redes entre organizações. As pessoas que trabalham e fazem voluntariado. Os projetos culturais. Os meios que documentam estas histórias. E as condições materiais que permitem que tudo isto continue a existir.

E esta ideia de comunidade enquanto ação, e não apenas identidade, também tem uma longa História. Alguns dos momentos mais importantes do movimento LGBTQIA+ aconteceram precisamente quando pessoas decidiram lutar por direitos que não eram diretamente os seus.

Quando outras pessoas lutaram por nós

Lesbians and Gays Support the Miners

A História oferece também exemplos bastante mais esperançosos. Durante a grande greve dos mineiros britânicos de 1984 e 1985, um grupo de lésbicas e homens gay criou o Lesbians and Gays Support the Miners (LGSM).

À primeira vista, aquelas comunidades poderiam parecer distantes. De um lado estavam ativistas LGBTQIA+ de Londres. Do outro, comunidades mineiras em confronto com o Governo de Margaret Thatcher.

As pessoas LGBTQIA+ poderiam ter concluído que aquela greve “não lhes dizia respeito”, mas não o fizeram. Angariaram dinheiro e construíram relações com comunidades mineiras, particularmente no País de Gales.

Depois aconteceu algo politicamente extraordinário. Em 1985, mineiros e famílias mineiras juntaram-se ao LGSM na marcha do Orgulho de Londres. O movimento sindical mineiro viria também a apoiar reivindicações pelos direitos de lésbicas e homens gay.

E havia uma ponte importante entre estas comunidades: ambas conheciam o que significava serem atacadas pela polícia, pelo Estado e por setores dos media.

Os próprios testemunhos preservados pelo LGSM recordam como as comunidades mineiras começaram a reconhecer experiências de perseguição que pessoas negras, lésbicas e gay conheciam há muito mais tempo.

A solidariedade desta história não foi feita por mera caridade, foi por reciprocidade política. Pessoas LGBTQIA+ defenderam trabalhadores cujos direitos não eram diretamente os seus. E esses trabalhadores e as suas comunidades tornaram-se depois aliados numa luta que inicialmente também não era a deles.

É difícil encontrar uma definição mais concreta de comunidade interseccional construída.

A crise da sida ensinou-nos a mesma lição

Poucos anos depois, a epidemia de VIH/sida voltou a mostrar o preço da exclusão e a força das alianças.

A sida foi durante demasiado tempo tratada como um problema de homens gay, mas a mobilização que transformou a investigação médica, o acesso a tratamentos e as políticas de saúde, envolveu homens gay, mulheres lésbicas e heterossexuais, pessoas racializadas, comunidades kink e muitas outras.

A ACT UP tornou-se um dos exemplos mais importantes desse ativismo. Uma campanha de vários anos confrontou a definição estadunidense de sida, que ignorava patologias particularmente relevantes para mulheres, pessoas que usavam drogas intravenosas e pessoas racializadas. Em 1993, por fim, os Centers for Disease Control and Prevention alargaram essa definição.

Novamente: não porque todas aquelas pessoas fossem afetadas exatamente da mesma forma, mas porque comunidade significa mais do que coincidência de interesses.

A ciência também mostra porque isto importa

A interseccionalidade não é apenas uma teoria política ou uma leitura histórica. A investigação sobre minority stress mostra há décadas como estigma, preconceito e discriminação podem criar um ambiente social de stress crónico com consequências para a saúde mental das minorias sexuais.

E os dados europeus mostram que a experiência LGBTQIA+ está longe de ser uniforme. No grande inquérito da Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia, 37% das pessoas participantes disseram ter sofrido discriminação no ano anterior.

Abaixo desse valor estão homens bissexuais (20%), mulheres bissexuais (26%) e homens gay (36%). Acima da média encontram-se mulheres trans (64%), homens trans (63%) e pessoas não-binárias e de género diverso (51%). Também acima da média encontram-se pessoas LGBTQIA+ requerentes de asilo ou refugiadas (54%) e quem tinha dificuldades económicas (56%).

São categorias que podem, naturalmente, sobrepor-se e haver razões distintas que as justifiquem. E esse é precisamente o ponto. Uma pessoa pode ser trans, migrante, racializada, viver com uma deficiência e encontrar-se simultaneamente numa situação de fragilidade económica. Não vive, obviamente, cada uma dessas condições em compartimentos separados.

Marcha pela Vida Independente (2024)

E, importa referir, também não podemos partir do princípio de que sabemos quais dessas dimensões estão presentes apenas por olharmos para alguém.

Tratar toda a comunidade LGBTQIA+ como se tivesse as mesmas necessidades não produz igualdade. Produz invisibilidade.

E há uma forma muito concreta de combater essa invisibilidade: criarmos lugares onde deixamos de ser categorias, estatísticas ou letras numa sigla e passamos a encontrar-nos enquanto pessoas.

Comunidade também precisa de um lugar

Há assim outra dimensão da comunidade que me parece importante recuperar depois de tantos anos de vida mediada por redes sociais: precisamos de lugares onde nos possamos encontrar.

O mundo digital transformou profundamente a vida LGBTQIA+. Para quem vive longe dos grandes centros, para quem ainda não encontrou pares, para quem tem dificuldades de mobilidade ou não pode revelar a sua identidade em casa, um grupo online pode ser a primeira porta para uma comunidade.

Permite encontrar informação. Descobrir palavras para aquilo que sentimos. Conhecer outras experiências. Organizar movimentos. Perceber, tantas vezes pela primeira vez, que não estamos sozinhas.

Isso tem um valor extraordinário. Lembro-me, por exemplo, de passar longas noites a ler e a escutar outras comunidades e vozes no Tumblr para as conhecer na primeira pessoa.

Mas estes momentos, ainda que possam encurtar distâncias, dificilmente substituem tudo aquilo que acontece quando partilhamos fisicamente um espaço.

Frente a frente. Olhos nos olhos. Uma conversa que começa sem estar programada. Uma amizade. Um debate. Uma reunião política. Uma exposição. Uma festa. Um karaoke.

Alguém que aparece pela primeira vez e descobre que pode simplesmente estar ali sem ter de explicar quem é. É também assim que se constrói comunidade.

O Centro LGBTI+, em Lisboa, é um exemplo evidente. Existe desde 1997 e combina serviços de apoio, programação política e cultural, grupos comunitários e um lugar quotidiano de encontro. Foi, quando abriu, o primeiro espaço comunitário assumidamente LGBTI+ em Portugal.

E depois surgem espaços novos porque continuam a existir necessidades diferentes. O Sáficas, inaugurado recentemente em Lisboa, nasceu da vontade de criar um espaço cultural, de convívio e criação particularmente dirigido a mulheres lésbicas e bissexuais, estando também aberto a outras pessoas.

É nestes e outros espaços que pessoas podem descobrir que pertencem à mesma comunidade. E é neles que outras pessoas deixam de ser abstrações políticas:

Uma pessoa trans deixa de ser “o debate sobre pessoas trans”.
Uma pessoa migrante deixa de ser “a questão da imigração”.
Uma lésbica deixa de ser apenas uma letra numa sigla.

Passam, sim, a ter nomes, histórias, opiniões, contradições, sentido de humor e um lugar à nossa frente numa mesa.

Talvez esta seja também uma razão pela qual os espaços físicos são importantes para uma política interseccional: obrigam-nos a encontrar pessoas que os nossos algoritmos poderiam nunca nos mostrar. Não para criarmos comunidades onde todas as pessoas concordam connosco, mas precisamente para aprendermos a continuar em comunidade apesar de não concordarmos sobre tudo.

Nenhum direito vive sozinho

Talvez esta seja, afinal, uma das lições mais importantes da nossa História: o poder e o impacto imprescindível da interseccionalidade na conquista de direitos e na construção de comunidades.

Nada disto exige unanimidade. Aliás, basta participar numa reunião com várias entidades LGBTQIA+ para perceber que unanimidade é rara. E ainda bem.

Mesmo dentro de uma mesmíssima associação, a diversidade de opiniões, experiências e estratégias pode tornar o trabalho melhor. Movimentos sociais sempre tiveram conflitos sobre prioridades, linguagem, financiamento, estruturas de poder, estratégias ou relações com partidos e instituições. Devem continuar a tê-los.

Interseccionalidade não significa que todas as pessoas tenham de pensar da mesma maneira. Longe disso. Significa algo simultaneamente mais simples e mais exigente: não transformar diferenças em abandono.

Não precisamos de concordar sobre tudo para perceber que a nossa liberdade também depende das instituições, leis, normas e comunidades que protegem a liberdade das restantes pessoas.

Trata-se de sermos maiores do que os nossos próprios interesses individuais. De ajudarmos a construir uma comunidade que também estará disponível para lutar por nós quando chegar a nossa vez de precisar dela.

Porque justiça, liberdade e igualdade nunca existiram no vácuo. Porque os movimentos que querem retirar direitos já perceberam a força das alianças. E porque, quando a maré é adversa, a força de um movimento está precisamente na capacidade de continuar a remar em conjunto.

Talvez, então, perante qualquer ataque aos direitos humanos, reste uma última questão: onde vou estar?


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